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Dividindo o cobertor

Sábado, 29 de Julho de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Acorda meu bem! Já são nove horas. Com um delicado beijo no lábio fui saudado carinhosamente naquela manhã de inverno. O momento narrado poderia representar uma bonita história de amor, se não fosse pelo fato de eu abrir os olhos e perceber que estava deitado na calçada, enrolado em um cobertor mal cheiroso.

Ao meu lado, uma mulher de aparentemente 30 anos, já sentada, sorria sem pretensões. Tentei sorrir. Ao lado dela, um cachorro vira-lata espreguiçava e abanava o rabo. Espreguicei também, numa tentativa de imitar meus anfitriões para ser simpático. Enquanto fazia isso, ganhei tempo para procurar entender o que estava acontecendo.

Eu estava numa cidade de Minas Gerais, chamada Ouro Preto. Tínhamos viajado de São Paulo em quatro amigos para aproveitar o Festival de Inverno. Durante a noite, assistimos ao show da banda Pato Fu na praça central do município. Bebemos um pouco. Um pouco de tudo, na verdade. De qualquer forma, como eu me perdi dos meus amigos e fui passar a noite com uma moradora de rua não tenho a mínima idéia.

A tal moça não vendia artesanatos e também não fazia repentes. Tampouco tocava algum instrumento musical. Ela simplesmente pedia dinheiro aos transeuntes. Era uma autêntica mendiga.

Apesar da simplicidade do seu leito e dos seus trajes, e principalmente da exposição ao olhar e ao julgamento da sociedade, ela não parecia infeliz. Ao contrário, no pouco tempo que fiquei por lá em condição de analisar alguma coisa, ela me pareceu uma pessoa de bem com a vida.

A moça me ofereceu um pedaço de pão, mas eu não sentia fome. Agradeci e sentei. O frio estava forte. Com uma leve puxada no cobertor, percebi que estava vestido com a mesma roupa que saí na noite anterior da República que me hospedava. Ufa!

Disse que precisava ir embora para procurar os meus amigos e ela me desejou sorte. Deu mais um beijo no meu lábio e disse tchau, com um grande sorriso aberto. Levantei, devolvi o cobertor e saí. Após pedir algumas informações, encontrei a tal República. Meus amigos acordaram, ouviram minha história e, para minha surpresa, acharam a experiência muito interessante. Gostaram até mais do que eu.

O restante da viagem foi um pouco menos imponderada. Cheguei a passar pelo local onde dormi aquela noite, mas a minha amiga provavelmente não me viu, ou não me reconheceu. No meu lugar, inclusive, já estava outra pessoa acomodada. Reconheço que bateu um leve ciúme.

No retorno para São Paulo, passamos um bom tempo conversando sobre a viagem. Histórias bizarras não faltaram. Um dos meus amigos não sabia exatamente o que ocorreu, mas despencou de um morro bem alto e, segundo ele, só conseguiu subir com a ajuda de um bruxo. Provava isso, mostrando os hematomas no corpo. Outro, disse que passou uma das noites numa igreja, tomando batida de caju.

Com relação ao terceiro amigo, não sabíamos nada. Não deu notícias até o início da noite do domingo, e não voltou no carro com a gente. Mas como ele já havia dado outras sumidas em viagens anteriores, não ficamos desesperados. Nos reencontramos umas duas semanas depois, em São Paulo. Só então descobri quem havia roubado o meu lugar e usado meu cobertor.                         

vem que é bão com a Rogéria | 2 vieram