![]() |
|
![]() |
Descendo a serraSegunda, 23 de Janeiro de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Depois de passar nove horas trancada dentro de um carro com uma criança birrenta, depois de ver meu carro quebrar na linha vermelha quando voltava para casa (e ser protegida por um traficante enquanto o guincho não chegava), depois de encarar quatro dias de chuva em companhia de um casal apaixonado numa pousada de São Tomé das Letras, jamais poderia considerar uma aventura um mero fim de semana na Praia Grande.Tá, é normal acabar a água nessa época do ano. Tá, é normal que os telefones não funcionem. Tá, o trânsito é algo totalmente previsível, tanto na ida, quanto na volta. Mas quem poderia imaginar que todos os problemas do mundo aconteceriam dentro do carro, antes mesmo de chegar à serra? Regra número 1: Não leve sua cunhada para a praia. Você corre o sério risco de passar o fim de semana se desviando de ataques verbais. E se forem só os verbais, tudo bem. A coisa complica quando começam a voar objetos. Regra número 2: Deixe seu cachorro em um pet shop. Ele pode surtar e passar a viagem toda empenhado em uma sinfonia de uivos e ganidos. Ou então pode tentar se suicidar pulando pela janela. Regra número 3: Quando sua sogra ficar na janela de casa rogando praga porque vocês vão viajar, desista! Praga de sogra pega. Que o digam os passageiros daquele carro, debaixo de um temporal absurdo, suando como camelos no deserto com todos os vidros fechados. Regra número quatro: Fim de semana na praia é só fim de semana na praia. Leve duas camisetas, um short e um maiô. Já deu. Nada de levar cobertor para o caso de esfriar, ventilador para o caso de esquentar, comida para o caso de dar fome, remédios para o caso de ficar doente. Deixe o enxoval em casa. Deixe os outros passageiros também, se possível. Ou melhor, fique em casa. E foi por não seguir essas regras básicas que hoje eu tenho trauma de viagens. Sim, porque agüentar uma cunhada reclamando, um cachorro uivando, cheiro de suor, chuva torrencial, praga de sogra e ainda ter que descarregar o carro e subir quatro andares pela escada é motivo suficiente para nunca mais botar meu pés fora de casa. Não me convidem.
texto livre de
Juliana Pescuma | Comentários
|