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De Natare e de pó

Quinta, 3 de Agosto de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Para Renata Cristina


Bela e vivaz, inteligente e solitária. Renata, em seu silêncio ensurdecedor levava a sua indiferença à tira colo. As palavras medidas, a arrogância contida. O umbigo e o mundo, o mundo no umbigo.

Os pais, irmãos, tios, de linhagem. Nada fora do lugar. Até os cachorros e os canários belgas tinham a procedência exata. Não havia espaço para quais queres com mera altivez.

Então nasceu Natare. Nasceu por nascer. Como uma escarradela na sarjeta da 25 de maio. Imperceptível mas lá. Tão imperfeita quanto indigesta aos transeuntes e convivas. Ela desenvolveu-se aos trancos, barrancos, lágrimas e comprimidos. Comprimida por aquele, esse, esses e aqueles. Espremida em um corpo só. Um único corpanzil jovial e trêmulo e tumultuado e povoado de mais. Sedento por tudo, por muito.

Natare era a expressão do puro desejo pelo desejo. Lacan que o diga. Freud não explica e Natare solta a mais amarela-acre das risadas. Efêmera como as pirâmides, como os montes, como seus dois seios fartos que se espremem entre o decote.

Natare intimidava Renata. Renata queria sê-la, mas não poderia. Não havia clitóris para tanto. O que pensariam todos? Natare não queria ser ninguém, quanto menos Renata. Natare talvez quisesse todos. Renata talvez quisesse a morte. Assim Natare o fez, e fez com o corpo o que bem entendeu, pois agora, o corpo era seu. Só seu.


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