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Crônica de um tempo futuro

Sábado, 8 de Outubro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Depois da explosão, muitos séculos passaram. Não se sabe exatamente quantos anos e nem a razão exata da destruição. Reza a lenda, porém, que até uns 20 mil anos atrás parte da documentação desses fatos ainda estava preservada. Dizem também que as memórias foram apagadas a pedido da própria sociedade.

As mulheres se dedicam às tarefas do lar. Operam os robôs carregadores de lenha, cozinham, lavam roupas e zelam pela harmonia da residência. Os homens cuidam da agricultura e da criação de animais. Plantam, colhem e tiram leite de alguns quadrúpedes.

Quase ninguém come carne, exceto quando algum animal morre de velhice. A principal diversão no local é beber a terrena, um tipo de bebida santa, que se consumida gelada apresenta propriedades afrodisíaca, alucinógena e energética. Já quente, o líquido é um poderoso calmante. Em ambos os estados físicos, porém, a terrena tem a função de garantir longevidade às pessoas.

Homens e mulheres, quase diariamente, saem à noite para beber uma “terrinha” gelada e navegar por rios e mares a 700 quilômetros por hora. Os mais velhos preferem tomar uma quente, em casa mesmo, e assistir a documentários sobre a chegada do homem em Plutão. Mesmo depois de tanto tempo, a recepção calorosa dos plutenses ainda emociona. A cena da distribuição gratuita de controles remotos, que alternam a rotação de satélites, arranca lágrimas dos mais sensíveis.

Os filhos ficam sob a guarda dos pais até uns 120 anos. Perto dessa idade, a maioria opta por morar em outro local e deixa a casa paterna para ter seus próprios filhos. A expectativa de vida beira os 590 anos e não há doença diagnosticada que não tenha cura.

A vida é de fato é bem tranqüila. Problemas? Praticamente não ocorrem, mesmo porque a sociedade é poligâmica convicta e universal. As poucas discórdias acontecem, na maioria das vezes, por causa do capim.

Quanto mais verdolengo e cumprido, melhor fica o preparo da terrena. E vira e mexe, algum néscio põe seu cavalo para pastar na área de cultivo do vizinho e, com isso, tenta preservar seu próprio capim. Trata-se de uma estratégia inaceitável na sociedade, mas há casos esporádicos registrados.

A punição para esse tipo de delito é exemplar. O cidadão perde o direito de freqüentar orgias e também o de beber a boa e velha terrena por 150 anos. O suicídio é bem comum entre os criminosos.


vem que é bão com a Rogéria | 5 vieram