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Contrata-seTerça, 2 de Maio de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Essa história é verdadeira. Aconteceu com o primo do vizinho da namorada do melhor amigo do meu irmão. Mas quem me contou foi o porteiro do prédio, que ouviu de sua filha que é amiga, mas não a melhor, da minha irmã. Presumo que meu irmão tenha contado para ela.Não passava das onze horas da manhã. O ambiente era escuro, esfumaçado, mobiliado com mesas e cadeiras com a pintura gasta, que rangiam sob qualquer pressão. Seres sem expressão, mortos-vivos, caminhavam de um lado para outro na ampla sala. As paredes estavam descascando e um antigo ventilador, que a muito tinha desistido de funcionar porque achava que o céu dos ventiladores sem dúvida era mais divertido do que aquilo, colecionava teias de aranha cujas proprietárias também já tinham se mudado para outro lugar. Uma campainha tocou e um dos funcionários da agência de recolocação profissional da prefeitura chamou: - Senha número 17.852! Número 17.852! Uma loura escultural, dessas de parar o trânsito em pleno final de tarde, apesar de muitos atestarem que isso hoje em dia não é mérito algum, se levantou e caminhou em direção ao guichê. Todos os outros guichês pararam no mesmo instante para acompanhar os movimentos sinuosos da candidata a uma nova vaga de trabalho, com a certeza de que achar uma para ela não ia ser muito complicado. Ela usava um longo vestido que cobria praticamente todo seu corpo. Os braços eram cobertos por luvas e usava óculos escuros. Ninguém notou que a indumentária não combinava em nada com o clima, com o ambiente, nem mesmo com o século. Nem sequer seu chapéu de abas largas levantou a lebre. Sentou-se na frente do atendente, que precisou de alguns segundos para se recompor. Seu rosto estava parcialmente coberto pelo chapéu e pelos óculos, mas sua beleza era inominável. Um pouco pálida, notou o franzino rapaz que teria a tarefa de entrevistá-la. Mas isso não seria problema algum. Ele começou, gaguejando um pouco: - Bom dia, senhora...? - Senhorita. Senhorita Laura Vilela. O rapaz digitava com pressa, obviamente nervoso. - Data de nascimento? - Treze de agosto de 1925... errr, 1975. - Seu endereço. - Avenida Paulista, 1313. - A senhora realmente mora na Paulista? - Sim, algum inconveniente com isso? - Não, não... de forma alguma. Estado civil? Soluçou levemente, como se aquilo despertasse alguma emoção enterrada. - Casada. Não, solteira.... Acho melhor colocar viúva. Seria o mais acurado. - Isso é alguma brincadeira? Uma pegadinha? Meu trabalho é uma coisa séria!!! – o rapaz ficou tão vermelho quanto o vestido que ela usava. - Eu sei, eu sei... me perdoe. É que... hummmm... eu fiquei viúva recentemente. - Ah... entendo... mil desculpas. E meus sentimentos. A senhora busca uma vaga para que tipo de trabalho? - Na rede de ensino. Sou professora. - Certo. Bom, preciso dos seus documentos agora. RG, CPF, título de eleitor e carteira profissional. Se tiver um currículo seria ainda melhor. - Será que não podemos pular essa parte? É só me dizer onde precisam de uma professora e eu dou uma passada por lá. - Veja, senhora... quer dizer, senhorita. Existem alguns procedimentos, algumas regras que devem ser... A moça, que passaria por uma lady se não estivesse cheirando à churrasco grego depois de andar pelo centro da cidade, perdeu de vez a compostura. - Eu pouco me importo com as suas regras! Você poderia me passar o endereço de uma escola que precise de uma professora? Na agitação deixou cair seus óculos e o chapéu escorregou, exibindo sua vasta cabeleira. Alguns poderiam achar a cena muito sensual. Mas não o pobre rapaz que a atendia, que tão de perto pode notar que a palidez da mulher se espalhava por todo o rosto, incluindo aí seus olhos, que eram totalmente desprovidos de uma só nuance de cor. Seus lábios não chegavam a ser brancos, mas um tom de roxo que um incauto passante ousaria chamar de “roxo carne passada”. Sua palidez era tão tangível que enquanto ela gritava a sensação causada era de que o mundo ao seu redor perdia um pouco a cor. Mas o que realmente incomodou o atendente foram os dois tufos de algodão que estavam enfiados nas narinas da candidata. Ele pode ouvir um estalo no fundo da cabeça, como uma memória que quer voltar à tona mas que o danado do inconsciente luta para tentar deixar bem submersa. - É você! É você! A loira do banheiro! Todos pararam para ver a cena. A garota sentia o peso de uma boa quantidade de pares de olhos em suas costas. Ela se sentou vagarosamente, como um combatente que se vê sem saída fora a rendição. - Sim, sou eu... Mas que droga... Parecia que ia ser tão fácil... - O que ia ser fácil? – perguntou alguém, já que nem de longe parecia que o garoto que a estava atendendo iria se recuperar do susto. - Parar com essa vida. Quer dizer, vida... Ha ha ha. Que engraçado, não! Eu sou de matar! Ha! De novo. Que galhofa... Olhou em volta, viu que suas piadas não tinham feito sucesso e resolveu ir direto ao ponto. - Vocês acham que passar meio século aparecendo em banheiros toda vez que alguém aperta a descarga três vezes é fácil? Não só pela correria, mas imaginem os lugares onde eu tenho que aparecer. Se alguém me invoca de dentro de um Novotel ainda vai lá... Mas existem lugares muito, muito piores. Mesmo o daqui pareceria limpo! Fora que com o tempo a coisa foi perdendo a graça. As crianças de hoje assistem muita TV, usam muito computador. Eu quase não assusto mais. Se vocês quiserem mesmo saber, já fui invocada algumas vezes por moleques que estavam bem loucos e queriam ter uma “viagem daquelas”. Por isso achei que conseguiria uma vaga como professora. Porque isso é verdade, eu era uma professora mesmo. Aliás, nada disso teria acontecido se eu tivesse seguido os conselhos de mamãe e estudado ballet. Um pouco confusos, mas incrivelmente comovidos, os funcionários da seção resolveram ajudar a jovem e encontraram um lugar onde ela pôde exercer sua profissão. Uma escola nos confins da periferia da cidade, na qual ninguém iria fazer perguntas sobre o motivo da mais nova professora lecionar Educação Moral e Cívica para alunos do segundo ano do ensino básico. Por isso fiquem tranqüilos. Por mais que vocês apertem a descarga dos banheiros por onde passam, a loira não vai mais aparecer. Apesar de ter muita gente interessada na vaga.
Não dêem muita atenção ao
Tiago Barizon | 6 pessoas pitacaram
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