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Circo, presídio e dominó

Sábado, 20 de Maio de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

O domador de leão inválido e o carcereiro aposentado disputavam uma partida de dominó, numa tarde pacata no centro de São Paulo. Entre uma jogada e outra, conversavam sobre o passado. Jajá estava afastado do circo há 10 anos, desde que desenvolveu uma estranha gagueira. O leão passou a não entender mais os comandos e ele teve de abandonar a função. Já Cevado beirava os 70 anos de idade e há mais de cinco não entrava em uma penitenciária.

Sentiam falta das atividades. Jajá alegava saudade até do cheiro do leão. Cevado, ao contrário, achava isso a única parte boa da sua aposentadoria. Ambos estavam entediados. Enquanto um rememorava os aplausos do público ao retirar sua própria cabeça da boca do animal o outro demonstrava nostalgia ao lembrar das rebeliões controladas com a ajuda da tropa de choque.

Jajá nunca mais se livrou do embaraço fônico. Consultou fonoaudiólogos, otorrinolaringologistas e pai de santo. Ninguém entendia aquela abrupta gagueira e tampouco sua infindável permanência. Começou a engolir fogo, para permanecer no circo. Só que o dono desse número não aceitou dividir a cena com Jajá e ele acabou sendo expulso. A tristeza resultou em depressão e Jajá ficou meio abestalhado.

Cevado, por sua vez, tentou impedir a aposentadoria. Conhecia a detenção como ninguém, contava com a admiração da diretoria do presídio e era respeitado pelos presos. Mas mesmo com o bom currículo a seu favor, a legislação do serviço público exigia seu afastamento para abertura de vaga aos novos concursados.

Ambos passaram grande parte da vida encarando o perigo e controlando o medo. Atualmente, a emoção mais forte que sentiam era na disputa de R$ 5 por partida de dominó na praça. Os dois amaldiçoavam cada instante de pasmaceira da rotina atual.

Nos sonhos de Jajá, um grande incêndio aconteceria em São Paulo. Ele engoliria todo o fogo, salvaria vidas, viraria herói e ganharia um novo papel de destaque no circo. Cevado sonhava com a cidade à beira de uma guerra civil. Sua habilidade de negociação, somada ao seu poder letal contra os bandidos, garantiria a paz aos cidadãos de bem.

Na tarde daquela sexta-feira, em que mais uma vez jogavam dominó, um ônibus foi incendiado próximo à praça. Jajá correu para tentar evitar o incêndio e acabou morrendo. Cevado, que mesmo aposentado sempre carregava uma pistola e um quepe da Polícia, tomou uma saraivada de tiros antes mesmo de chegar próximo do coletivo.

Foram os primeiros a perder a vida numa onda de violência que assolou São Paulo. Mas foram os últimos a morrerem felizes diante daqueles acontecimentos. 
        

vem que é bão com a Rogéria | [1] veio