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Ceticismo e medoQuarta, 3 de Novembro de 2004* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Ele era cético, mas temeroso. Cético porque queria acreditar no que se pode explicar, na ciência, no bom senso. Temeroso porque jamais havia se convencido definitivamente de nada e porque não podia evitar aquele sentimento.Essa a dualidade tomou conta de seus pensamentos naquele dia, depois de ter sido abordado por aquela desconhecida. Ela havia dito qualquer coisa sobre o quintal de sua casa. Tentou esquecer tudo, mas não pôde evitar dar uma vasculhada quando chegou em sua casa naquela noite. Reparou uma única coisa estranha. Havia uma falha no gramado dos fundos, de mais ou menos um metro por cinqüenta centímetros. Não era nada, pensou. Mas não resistiu e foi compelido a cavar o chão no local. Estarrecido, encontrou um bebê enterrado ali. A criança, morta e suja de terra, pareceu-lhe o próprio filho. Diante do absurdo, largou o corpo e correu para dentro de sua casa. Mas lá encontrou sua mulher calmamente amamentando seu filho, vivo. Voltou então para o quintal, onde agora encontrou o gramado intacto. Confuso, ele voltou-se para entrar em casa novamente e deparou-se com a mulher com quem havia falado durante o dia. Parecia diferente. Ela flutuava levemente, mal encostando os pés no chão. A mulher desculpou-se, agradeceu, pediu que por favor ele cuidasse bem de seu filho e sumiu. O homem jamais soube o quanto de realidade houve nas coisas que viu naquele 31 de outubro, se aquilo tinha acontecido ou se era um devaneio. Cético, achou que as mudanças de comportamento do filho pareciam normais. Temeroso, jamais teve a certeza de que aquele menino não foi possuído pelo espírito da criança morta que achou em seu quintal. |