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Carminha

Segunda, 21 de Agosto de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

    Sentiu o ar frio da noite bater na cara pela fresta da janela do carrão importado enquanto cruzavam a avenida larga. Seu amigo é quem dirigia. Ele apenas observava a noite. Algumas poucas vezes olhou de relance para a pistola Glock preta discreta sobre o painel do carro. No mais, se dedicava a admirar a cidade. O silêncio pesava entre eles. A sensação que tinha em seu estômago era familiar. Mas era antiga, da infância e da adolescência.
Aos 12 anos quando correu na escola a história que a Carminha queria dar para ele foi a mesma sensação. Ele não poderia desistir. No fundo ele sabia que o prazer que viria desse ato seria incrível. Mas seu estômago dava voltas, a boca secava e ele desejava lá no fundo que alguma coisa qualquer acontecesse para evitar toda a situação. Ele desejava que chovesse torrencialmente, que a mãe dela viesse buscá-la na praça aos tapas, ou que a polícia o pegasse e lhe desse uma geral. Mas nada disso aconteceu e ele teve que se esfregar em Carminha atrás da árvore. E gozou deliciosamente. Mas a sensação de expectativa...
Voltou de suas divagações. Olhou para a arma. Olhou para o amigo que notou o seu olhar, sorriu e voltou a atenção para a rua. O amigo dirigia muito mal, não poderia se dar ao luxo de desviar o olhar da rua. Por pura falta do que fazer abriu o porta luvas e começou a fuçar nas coisas dos outros. Documento do carro, manual, CDs, óculos escuros. Nada de mais. Eram coisas dos outros. Era o carro dos outros.
Encostaram numa esquina e observaram a rua do bairro de classe média alta. Faróis apagados, cigarros acesos. Tudo era tranqüilidade. A Glock pousada serenamente no painel, o ar frio pousava sobre a pele e os órgãos internos não paravam em lugar nenhum.
Precisava disso. Queria isso. Desejava isso. Mas ao mesmo tempo desejava que os gambés dobrassem a esquina numa patrulha e eles fossem obrigados a voltar para casa, deixar para outro dia. Desejou também que chovesse torrencialmente. Desejou que a mãe de Carminha abrisse a porta e os tirasse do carro aos safanões e os mandasse para casa. Mulher direita aquela. Já devia estar morta. Isso faz tanto tempo...
Um carro embicou no portão da casa, mas não era a polícia. O carro que em que ele estava acendeu-se todo e quando o portão se abriu, os dois estavam emparelhados lado a lado e a Glock fazia volume em sua mão. O metal retangular era frio e o cabo da arma era texturizado. Era ela toda preta. Preta como Carminha.
Sob a mira da arma, o homem gordo e careca ergueu as mãos, desligou o carro e foi fazendo tudo o que lhe era mandado. Acordou a esposa e as duas filhas e até tentou fazer o papel de macho da casa, mas não por muito tempo. A pólvora é a lei. A arma agora já estava quente em sua mão e ele não se lembrava de Carminha, da chuva ou da polícia.
Depois da limpa geral na casa, seu amigo começou a carregar o carro enquanto ele vigiava a família sentada na sala. Correu os dedos pela pele lisinha da bochecha da menina mais velha enquanto observava o pai contorcer-se com seu orgulho ferido. O jogo começava a ficar divertido. Desceu o dedo pelo pescoço da menina que ficara rígida de medo. O pai mexia-se no sofá. Pegou num dos peitos dela. Ela nada. Ele olhava com ódio e rangia os dentes. Pegou na coxa dela. De leve. Agarrou. Soltou. Só olhando o pai se retesar. Enfiou a mão no meio das pernas. Soltou. Sinalizou para ela levantar e ir até a cozinha. E sorriu para o pai que deu um pulo no ar e tomou dois tiros no peito.
O amigo vem da garagem.
- Tá nervoso, fio?
- Nah. Tudo bão aqui.
Saíram deixando pegadas grudentas de sangue no tapete. As três mulheres da família gritavam e se agarravam.
Carminha preta e morna aquecia sua coxa na noite fria.
Tudo a gente aprende.


coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Um comentário por misericórida!