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Cada Um Tem Seu Caminho

Terça, 24 de Janeiro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

O Freitas era um cara legal, querido por todos no departamento comercial. Tão despachado, tão simpático, que quase ninguém sabia seu primeiro nome. Ele se apresentava como Freitas para qualquer um e pedia para ser chamado assim. Orgulho heráldico, provavelmente.

Ele era vendedor de uma grande empresa de componentes elétricos e atendia boa parte do interior de São Paulo. Praticamente todo dia visitava alguma cidade, das maiores até as menores, de vinte, trinta mil habitantes. Gostava de dizer que mantinha acesa a memória dos caixeiros-viajantes, uma profissão em extinção nessa época de internet e vendas on-line. Dizia ele:

- Nada substitui uma boa prosa junto a um cafezinho.

Talvez estivesse certo, sua fórmula funcionava há mais de 30 anos. Passou por vários chefes, todos gostavam de seu jeitão e o admiravam. Foram tantas vezes que ofereceram uma promoção para o Freitas, promoções boas, que qualquer garoto imberbe recém saído da faculdade agarraria com unhas e dentes. Mas o Freitas nunca aceitou.

- Meu lugar é na estrada... – Dizia ele com um sorriso jovial estampado no rosto.

O Freitas se sentia livre na estrada. Sentia-se em casa viajando trezentos, quatrocentos quilômetros, freqüentemente até mais, toda semana.

Quem não gostava muito disse era a Da. Cleide, esposa do Freitas. Conheceram-se quando o Freitas tinha um ano de empresa, um ano de viagens. No começo ela achava tudo uma grande aventura. Quando podia acompanhava o Freitas nas viagens, transformando em um passeio romântico. Casaram-se um ano depois, durante uma convenção para a equipe de vendas em Presidente Prudente. O primeiro filho foi concebido em Limeira. Nasceu em São José dos Campos.

As viagens então tiveram que parar. Não dá pra cuidar e educar um filho pulando de cidade em cidade. Mas claro, pararam para a Da. Cleide, porque o Freitas continuou no seu caminho. Ninguém pode dizer que era um pai muito presente, por vezes passava dois, três dias na semana sem voltar para a capital. Mas sempre que podia passava o tempo livre com a família e todo final de semana era sagrado na companhia da esposa e dos filhos, que quatro anos depois já eram três.

O tempo passou e Da. Cleide se cansou de não ter o marido todo dia em casa. Apesar da distância, Freitas nunca deixou que sua casa passasse por qualquer necessidade, mas isso era pouco para Da. Cleide. Ela queria seu marido só para ela. O ciúme começou a comer pelas beiradas o amor e a admiração que ela sentia por Freitas. Nas viagens em que ele passava uma ou mais noites fora ela ficava pensando e imaginando em que tipo de farra ele estava se metendo.

E o Freitas, coitado, ao final do dia não via a hora de chegar no seu quartinho de hotel, tirar a foto da família e colocar na cabeceira da cama, para ficar olhando e matando as saudades enquanto deixava o sono chegar.
Como todas essas caraminholas na cabeça, um dia Da. Cleide teve uma idéia. Um novo direto tinha entrado na empresa em que o Freitas trabalhava. Chamou seu filho mais velho e contou de uma oportunidade para ele, que tinha acabado de abrir um escritório e precisava de clientes.

Foi assim que a Eletromach Ltda. entrou na era do e-commerce, usando um portal de vendas B2B desenvolvido e mantido pelo filho do Freitas.

Pouco tempo depois do sistema ter sido implantado o novo diretor chegou para o Freitas com toda a simpatia do mundo, achando que ia passar a melhor notícia que alguém poderia receber:

- Você deve estar muito orgulhoso do seu filho, hein Freitas? Graças a ele agora esses seus dias de estrada acabaram! Nada mais de se cansar na estrada.

Na hora ele percebeu o dedo de sua tão amada esposa. Mas não tinha mais o que fazer agora, o estrago estava feito.

Naquela noite Da. Cleide esperava ansiosa pelo marido, usando um de seus vestidos menos usado e com a carne assada preferida do Freitas no forno. Mas o Freitas nunca chegou em casa. Não aquela noite, nem naquela semana... nunca mais.

Alguns acham que ele foi seqüestrado no caminho de volta para casa, mas esses são os que o conheciam pouco. Aqueles que estavam em sua companhia nos anos todos de trabalho sabiam que ele estava na estrada nesse exato momento.

- Ele pegou a estrada. Ou talvez a estrada tenha pegado ele. Quem sabe? Tem gente que precisa da estrada para chegar em algum lugar. Eu acho que a estrada precisa do Freitas para ser alguma coisa...


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