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Cachorro QuenteSegunda, 20 de Setembro de 2004* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais "Como você come aquilo? Éca." Érica disse. E não tinha sido a primeira a falar algo do gênero sobre o cachorro-quente-daquele-tiozinho-que-ficava-na-frente-da-facul. Quer dizer, não era bem na frente, porque, para escapar da vigilância sanitária, o seu Astério teve que levar seu carrinho para uma escura ruazinha sem saída nas proximidades.E isso - ter que se esgueirar de modo quase criminoso até aquele beco para comprar o dog do Seu Astério - só aumentava o fetiche de Marcelo. A julgar pelos comentários dos amigos, pela expressão de alegria no rosto do velho paraíbano ao vê-lo e pelo fato de sempre haver um lanche já pronto esperando por ele, Marcelão devia ser um dos únicos clientes de Seu Astério. (Dava até para imaginar que fosse o único, mas como alguém manteria um negócio tendo apenas um cliente, e que sempre fazia fiado?) O fato é que Marcelo, como seu fornecedor, também aguardava ansiosamente a hora do intervalo, quando ia correndo comprar a iguaria. Uma noite, os amigos, que ficavam tomando cerveja e fumando maconha no bar, chegaram à conclusão de que Marcelo estava viciado e precisava de ajuda. Foram falar com a tia-dona-mãe-do-Marcelão e contaram para ela o que estava acontecendo com seu caçula. Então a Dona Graça descobriu de onde vinha a expressão abatida e aquele comportamento estranho que o filho apresentava. Acompanhada pelos colegas de Marcelo, correu até seu quarto. Quando por fim conseguiram arrombar a porta, encontraram o rapaz caído no chão, sufocando, sem ar. Pensaram em fazer uma respiração boca a boca, mas o bafo desencorajou a todos, inclusive Dona Graça. Ele estrebuchou mais um pouco, e só. Na sequência, começou a caça a Seu Astério, ou melhor, ao tiozinho-do-cachorro-quente-que-ficava-na-frente-da-facul, o cruel assassino. Mas não era apenas o nome dele que não deconheciam: também não imaginavam como era a cara dele - ninguém nunca tivera coragem de chegar perto dele o suficiente para ver - , e o beco onde ele se escondia era tão escondido que ninguém sabia onde ficava. Passados quinze minutos, desistiram das buscas. Mas fizeram uma bela homenagem ao Marcelão. O diretor discursou com enfâse sobre o aluno que nem conhecia e o coral cantou "Pais & Filhos" (música que Marcelo odiava), enquanto Dona Graça chorava. Alheio a tudo aquilo, Seu Astério comprava uma passagem de volta para a Paraíba. Não dava mais para viver de cachorro-quente em São paulo. O movimento tinha caído muito.
Aquela coisa toda por
Leandro Leal | Tá esperando o que pra descer o pau?
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