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Bordão do Jô

Quarta, 7 de Junho de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Marquinhos era um personagem muito, muito estranho. Uma figura, diziam os poucos amigos que ele tinha. Desde criança, era obcecado por programas como A Praça é Nossa e Zorra Total. Sim, porque o Zorra Total, para ele, passava na TV desde que ele era criança, mesmo hoje ele já estando com seus 30 anos.

Por isso, passava a maior parte de sua vida na tentativa de desenvolver bordões que o personificariam para sempre. Algo do tipo “Parece uma bichona” ou “Beijo do Gordo”. “Vou ficar famoso e aparecer no Jô Soares”, dizia sempre com os olhos brilhando.

O primeiro que ele tentou emplacar era o “Quanto?” Explico. Sempre que alguém falava algum valor, ele ia até o ouvido da pessoa e gritava bem alto: “Quanto?”.

No começo até que foi engraçadinho, mas depois que ele começou a fazer isso com estranhos, na rua, a coisa ficou feia. Resultou que ele teve de abandonar o bordão quando tomou um sopapo de uma moça no meio da rua após aborda-la abruptamente. “Ta pensando que eu sou prostituta, é pirralho? Então toma aqui...”

Marquinhos então apelou para o telefone. Quando ele ligava para as pessoas, em vez do tradicional Alô, ele dizia “Tá transando?” Mais uma vez o bordão pegou no começo. Mas a repetição fez o rapaz ficar maluco. Até o dia em que ele bateu o carro e teve de ligar para a delegacia. “Ta transando?”, falou para a delegada. Seu celular foi rastreado e ele tomou um pau.

Depois disso, vieram outros bordões. “Isso é uma desumanidade”, repetia para qualquer assunto. “E aí, Magrão?”, ele falava para qualquer pessoa, mesmo as mulheres, e “Você é um bebê, Bebê!”, dando um tom mais forte para o último bebê e por aí vai. Até que uma hora acabava em confusão.

Mas como louco que se preze não se emenda nunca, ultimamente Marquinhos tem sido visto por essas bandas com um novo bordão. “Seu Pudim de Pinga!”, ele grita sempre que vê um bêbado. Mas grita mesmo, sempre no ouvido da pessoa.

Por enquanto, dizem que ele não levou nenhum tapa. Até porque os pingaiada aqui da rua não conseguem nem levantar a mão depois de dar uns goles. Mas cedo ou tarde o bicho vai pegar para ele. Ainda mais quando o Jô Soares o descobrir. Só que depois de chamar o gordão de “Pudim de Pinga” em rede nacional, até eu ficarei fã do Marquinhos. Mais fã, diga-se de passagem.

Tá lá um corpo estendido no chão por Dr. Peçanha | Apontooooou. Guardou!