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Barbada

Terça, 14 de Fevereiro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

O dinheiro só dava para uma cervejota. Era isso ou ir para a cama cedo. Carlito resolveu que o melhor era molhar a goela, mesmo que só de leve, e saiu à pé de casa.

No caminho para o bar, teve uma visão. Reluzente e colorido, surgiu à sua frente um grandioso bingo.

O plano era simples. Jogava os cinco contos que tinha no bolso. Se perdesse, voltava para casa para assistir a Zorra Total. Se ganhasse, ia para a farra.

- Bingo!

Não deu outra, bingo logo na primeira cartela. Mas não para o Carlito, e sim para senhora do cabelo roxo que fumava cigarros Ella na mesa ao lado.

Mesmo sem um centavo, saiu do bingo e resolveu dar uma passada no bar. Pouco mais de meia hora depois, praticamente sem perceber, já tinha perdido também o relógio nos dadinhos, os sapatos no truco, um dente de ouro no palitinho, o cachorro no dardo e a virgindade na sinuca.

Desistiu de tudo e voltou para casa. Iria assistir ao Supercine antes de dormir. Isso se o desgraçado que ganhou sua televisão no par ou ímpar não tivesse feito questão de ir com ele até sua casa para cobrar a dívida na hora.

Sozinho na cama, sem TV, sem nada, Carlito sentiu o que é ressaca moral. Mas, mesmo assim, ainda tinha o que comemorar. Pelo menos o rapaz da sinuca estava bêbado e não tinha visto ele sair do bar de fininho. Uma coisa era certa. O rabo era coisa que o Carlito não ia mais apostar. "A não ser numa barbada", pensou, antes de dormir.

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