![]() |
|
![]() |
BancarrotaSexta, 28 de Outubro de 2005* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Embora a Grande Roma tente demonstrar o contrário, vencedores quando nascem não são batizados de Tibério. Cortadores de batatas, serventes e vendedores ambulantes, quiçá. Há sempre exceções - raras quanto cobras albinas de duas cabeças, mas há. Tibério Souza não é uma delas.Nascido em uma decadente família de classe-média, não conheceu o pai, que foi comprar cigarros e nunca voltou para o lar. Deixou duas filhas, a esposa grávida e uma conta em aberto na mercearia do bairro. Tibério cresceu vendo sua mãe afogar-se no alcoolismo e vender o corpo das filhas para sustentar o vício e comprar comida e maquilagem. Obrigado a sair de casa enquanto as irmãs tinham “visitas”, ia ajudar o velho Demercino em sua banca de revistas. Em troca, este lhe dava algo para comer e revistas velhas. Tibério, que era esquálido e pouco bonito, logo percebeu que não teria seu corpo agenciado pela mãe, portanto que se virasse de outra forma. Então, durante a semana passava os dias e, às vezes, as noites, ajudando na banca do seu Demercino. No sábado, ia até o subúrbio pobre e revendia as revistas velhas que ganhava. Poucos pagavam com dinheiro. Escambo por comida, cigarros, objetos diversos e pequenos animais eram comuns. Então, durante a semana, enquanto ajudava o velho Demercino, Tibério revendia os itens que conseguira pelas revistas. Chegou uma época que Tibério tinha uma espécie de sub-banca ou banca genérica, onde vendia de tudo, ali mesmo, na banca do seu Demercino - que já começava a ver com maus olhos os dois garnisés que bicavam suas revistas e o sucesso do rapaz. Cansado, velho, alcoólatra, jogador compulsivo e evangélico, Demercino perdeu a banca em um jogo de caxeta ou, não se sabe, doou para o pastor da igreja que freqüentava. De toda sorte, o novo dono forçou Tibério a encerrar suas atividades depois de ter feito sopa com os garnisés do rapaz. Tomado por uma justificável fúria e pela fome, Tibério não suportou ver seu mundo desabar. Com o fervor do sangue nos olhos e a sandice dos justos, ateou fogo na barraca. Vendo as labaredas subirem rapidamente pelas revistas, já no chão, teve tempo de lacrimejar, pouco antes do fogo carbonizar seu corpo.
Introduzido (ui!) por
fezon, o que virá | Comente e ganhe prêmios!
|