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As luxuriosas memórias de Frank K. Litherman, III

Quinta, 22 de Dezembro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Para: Silvonei Delamari, Magda Cotroffe e Ibrahim Sued

Quando não pude mais contar com a amizade de Maria Elvira e Marcinha, passei um longo tempo no campo da solidão. Era março, quando os dias ficam mais curtos e a noite chega de soslaio. Não há escurecer nesta época. Apenas: dias e noites. Mas o tempo pouco interfere no que quero falar.

A solidão extensa para um homem beirando os trinta anos, faz com que ele deseje viver até, no máximo, 55. Assim, pode ter a sua crise de meia idade antecipadamente, sem muita culpa. Ao menos, foi assim comigo.

Busquei uma opulência desnecessária. Conversível importado, armanis, festas e putas. Muitas. Desfilava de capota arriada e ninfetas em micro-saias, quando muito. Não tardou para conseguir uma dezena de amigos que se acotovelavam nas muitas festas que dava em minha cobertura. Vista para o mar.

Não demorou, também, para bater o carro em uma curva. Duzentos e tantos por hora e algum tempo na UTI. A ausência de visitas fez com que a crise se agravasse. Tudo tinha gosto de nada. Me desfiz da opulência por um precinho módico. Mal deu para os implantes, enxertos e a enfermeira que demiti logo depois que se recusou aos meus caprichos.

Vídeos antigos e litros de vodka me faziam companhia enquanto o corpo melhorasse por conta. A solidão batia no teto. Então o telefone tocou. Séculos em silêncio e agora berrava, desesperado. Era do cartão de crédito. Uma moça de voz doce queria satisfações do porque meus gastos passaram a ser ínfimos. Não tinha mais do que vinte. Talvez, menos. Aquela voz merecia gemer no meu ouvido, não ficar falando de promoções e tarifas zero.

Deixei que falasse. Tempos não ouvia uma voz feminina que não fosse televisionada. Ela me chamava pelo nome. “Sr. Frank”. Como aqueles galãs que via no vídeo. Mister Frank pra você, querida! Eu soterrado em devaneios sujos e, ela, contando sobre um novo pacote de milhagens. Milhagens pra que, se que o único lugar que eu queria chegar era até o suas costas, ou entre suas pernas? Como fosse, deixei que falasse. Imaginava como ela balbuciaria aquela coisa toda de anuidade com isenção para cartão adicional se estivesse com a boca ocupada, olhando-me nos olhos. De baixo pra cima. Então, ela agradeceu. Pedi que tipo de calcinha ela estava vestindo. Ela estranhou e perguntou “por que?”. “Porque ainda não terminei”. Ela me xingou de tarado-filha-da-puta e desligou. Terminei antes. “Tarado-filha-da-puta”. Que delicia!



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