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As férias da família Almeida
As férias da família Almeida
Sexta, 14 de Janeiro de 2005
* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais
As férias da família Almeida são sempre uma merda. Todo ano, eles alugam uma casa horrível, no Jardim Solemar, com três cômodos, onde enfiam todos os dezoito componentes. Mas como aqui eles também não moram tão bem, talvez o sacrifício não seja tão grande.
É um tal de criança correndo, mulher gritando, homem peidando. Resumindo, tudo é mesmo uma droga. Mas todo ano é a mesma coisa, eles fazem questão de repetir.
Dizem que é para dar sorte, passar a virada com a família, tomando sidra cereser, comendo lentilha, pulando onda.
E depois da virada todo mundo volta, bêbado, gritando, chorando, pensando no tio que morreu, no namorado que deu um pé na bunda. E cada um deita cheio de areia e água do mar no colchonete, enfiando a mão da cara do tio, a bunda no joelho da prima, e assim por diante.
No mês de janeiro, tudo continua. É fila na padaria, chuveiro sem água, macarrão com molho de tomate e salsicha, sessão da tarde quando chove, batida de maracujá na barraca nojenta do tio da praia quando faz sol.
Esse ano, eles iam ficar até a semana que vem, curtindo o verão. Mas choveu muito por aqui e o barranco caiu na casa da dona Josefa, que é uma Almeida também e mora no Capão Redondo. Anteontem, todo mundo voltou para ajudar a tirar a lama. E para ir ao enterro do vizinho que morreu soterrado. Assim, acabaram-se as férias.
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