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Arsène LupinSegunda, 2 de Outubro de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Meu amor surgiu na calada da noite, abriu lentamente uma frestinha na minha janela e se esgueirou para dentro, pé ante pé, pulsação ante pulsação, assim como fazem os gatunos. Especializados na arte do crime, surgem do nada e quando você percebe o que está acontecendo, ele já está longe, com um sorriso maroto no canto dos lábios e um saco preto jogado nas costas, dentro do qual está tudo o que você achava que ninguém nunca poderia lhe tirar.Assim foi comigo. Meu amor entrou quieto e saiu calado, mas não sem ter feito da minha vida um escândalo popularesco. Não o vi chegar, mas ouvi em alto e bom som quando ele partiu, porque saiu quebrando as vidraças que tão elegantemente afastara para poder entrar. Meu amor hoje leva nas costas as únicas coisas que eu achava que não poderiam ser tiradas de mim. Lá vai no saco preto de lona, jogado de qualquer jeito em seu ombro minha segurança. Minha auto-estima também está lá dentro, amarfanhada lá no fundo, porque ela já não era grande coisa para começo de conversa. Também leva minha fé e a minha esperança, não no futuro, pois este dista, mas na humanidade, e na pouca humanidade que existe ainda em mim. Esta última também foi amassada de qualquer jeito entre outros tesouros meus, como a minha vontade de voar, a minha coragem para atravessar a noite de lado a lado. Preciosidades como estas não tardam a surgir, menores, meio marcadas, porém surgem. Mesmo contando com seu retorno, não gostaria de tê-las perdido, neste momento tão crítico da vida. Sem coragem, sem fé e sem humanidade dentro de mim, perdi também meu sorriso. Não, este não foi o amor que levou, este eu perdi sozinho, porque segurá-lo na frente do rosto já não fazia mais sentido. Também recolhi minha empolgação e minha boa vontade. Estas eu confesso que escolhi guardar para melhor ocasião. Porque eu deixaria algo tão bom exposto, se pode também ser levado por um amor meliante? Não, essas eu preservo escondido na gaveta mais secreta do armário mais escuro do meu cérebro. Ficam lá guardadas, definhando, porque não são tocados pela luz do sol. E agora fico assim, desnudado de meus valores, remoendo o arrependimento de ter sido vítima de seus dedos leves. Mas quem lutaria contra a investida cheia de charme e elegância? Amor é um mestre dos disfarces. Amor é um ladrão de casaca. Amor é um Arsene Lupin.
coisas que acontecem por aí sempre acontecem com
Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 3 sublimes almas
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