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Amor de picaSexta, 6 de Outubro de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Muitos homens já passaram por isso: a mulher não é muito bonita nem inteligente, o papo é fútil, o humor variável e o gênio terrível, mas mesmo assim o sujeito come na mão daquela donzela. Não há explicação aparente. Na maioria desses casos, nem mesmo o grande interessado em entender a preferência pela consorte consegue chegar a uma resposta exata.Na falta de um bom porquê para a situação, os amigos dão início às especulações. Aliás, comentar a relação amorosa alheia é uma das atividades mais comuns nas turmas de amigos. É um verdadeiro esporte. Um argumenta que o amigo precisa de uma mulher controladora, que o coloque na linha. Outro zomba e diz que o cara não consegue arrumar nada melhor. Também tem aquele que acredita que a escolha por esse estilo tem explicação na infância, devido à falta ou exagero de atenção da mãe do amigo. A diversidade de palpites é enorme. Poderíamos ficar horas e horas falando a respeito disso. Entretanto, para evitar alongar demasiadamente o assunto, vamos nos ater a apenas uma das colocações que são abordadas nesses debates. Voltemos. A discussão na turma está forte. Todos se cercam de cuidados ao fazer a análise para não ofender o colega. Num determinado momento, porém, sempre tem alguém que pede a palavra e esbraveja: “isso é amor de pica”. Em seguida, pede desculpa pela posição, mas reitera: “eu tava quieto até agora, mas eu acho que só pode ser amor de pica”. Apesar do linguajar chulo, o interlocutor se defende argumentando que não há outra expressão na língua portuguesa para definir o que ele pensa. E continua: “aquela mulher deve ser uma tremenda metedeira”. Muitos começam a rir, alguns ficam um pouco constrangidos, outros dizem que preferem não imaginar essa cena e grande parte das garotas concorda. O debate geralmente termina em seguida. Na falta de uma explicação melhor, o tal “amor de pica” ganha força. É um argumento que cresce nessas situações. Mas, infelizmente, quase nunca os integrantes da turma conseguem se certificar de que o laço forte do relacionamento era mesmo esse. A dúvida sempre irá pairar no ar. E o mais importante: o amigo estará perdoado pela aparente má escolha. |