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Amargura, 1996

Quinta, 20 de Julho de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

* para José Lins do Rego, Paulo Cezar Grande e toda comunidade de Pau Grande


Quando ela entrou pela porta, não adiantava mais. Era tarde. Duas e meia, pouco mais. Pouco menos. Não importava. Nada mais adiantava. Eu já havia descoberto tudo.

Tudo é um pouco de exagero. Sabia que existia outro. Com o qual ela se encontrava regularmente. Não podia dizer aonde, quando ou como. Mas havia outrem, com ela, quando eu não estava por perto. Isso eu sabia que havia.

Ela ainda tentou bater na porta. Chamar de amor. Mas, eu não estava mais lá. Pude ainda ouvir um clamor. Um “posso explicar”, ou coisa que o valha.

Certas coisas não precisam de explicação. Não existem para serem compreendidas. Precisam ser aceitas ou não. Eu não estava disposto a aceitar. Não aquilo.

Eu não precisava mais de explicação. Precisava de um rumo. Qual fosse. Desde que diferente dos braços dela. Não havia mais razões naquilo. Não adiantaria querer olhar na cara daquela mulher, nem hoje, nem amanha, nem nunca mais.

Vaguei noite adentro, até chegar no amanhecer. Precisava de uma nova vida. Para isso precisava antes me embriagar urgentemente. Passei no Banco, abri uma conta em meu nome onde transferi todo o dinheiro da nossa conta conjunta, deixando algum no bolso.

Liguei para o trabalho dizendo que não estava me sentindo bem e iria passar a manhã no hospital pra algumas consultas e, dependendo do resultado dos exames, poderia ficar o resto do dia.

Nunca tive o hábito, porém acabara de descobrir que o mundo em que sempre acreditei era só de mentiras. Não estava mais disposto em crer na existência de outra coisa a fazer que instalar em uma pensão em lugar qualquer e beber até que minha consciência escorresse pelos ouvidos.

Entrei em uma loja de conveniência atrás de um litro de uísque. Saí com um Teacher’s embaixo do braço, disposto a encontrar tal pensão. Lembro que entrei por ruas e bares e bairros e sarjetas e depressões profundas.

Durou três anos.

Saí sem roupa, bens, dinheiro e dignidade. Ainda tenho um relógio automático, uma foto dela e um gosto amargo na garganta.



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