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A Vida Passa

Terça, 11 de Julho de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Não se lembrava há quanto tempo estava assim. O pequeno quarto já era uma extensão natural do seu corpo, cada detalhe, cada mancha das paredes, cada rachadura no teto eram como velhos amigos.

As prateleiras estavam repletas de livros os quais ele já sabia cada palavra. Mesmo assim, vez ou outra, pegava um deles e o relia.

O resto da casa permanecia silencioso como um antigo mausoléu. Sua esposa e filhos partiram muito tempo atrás, incapazes de compreender a apatia que tomara conta de seu marido e pai. Foi sofrido e triste acompanhar todo o processo, no final era simplesmente insuportável ver a transformação, o isolamento chegar e tomar conta com tamanha naturalidade, como se ele sempre estivesse por perto, rondando, esperando o momento certo para dar o bote.

Como tudo aconteceu era uma vaga lembrança, perdida em uma bruma que cobria seus olhos boa parte do tempo. Quando sua visão não estava anuviada, sentia saudades de seus filhos e de alguns momentos que passaram juntos. Mas esses períodos de contato com o mundo externo eram cada vez mais raros.

Tudo o que precisava do mundo externo ele conseguia pelo telefone, seu trabalho era feito de seu escritório ao lado do quarto, com a ajuda de um moto-boy que deixava e recolhia encomendas largadas na ante-sala da casa.

Todas as janelas se fecharam no dia que o resto da família partiu e nunca mais foram abertas novamente. Com exceção de uma.

Era a janela que abria para o jardim. Todo dia, no final da tarde, ele se sentava de frente à janela e deixava que o sol lhe aquecesse o rosto. Naqueles momentos ele quase podia se recordar de quando ensinou o filho a andar de bicicleta na praia, da tarde que fazia quando sua filha nasceu, das manhãs de domingo nos parques da cidade acompanhando sua esposa, na época em que eram apenas namorados.

Ele ficava lá sentado, por tempo suficiente para o sol se pôr e uma leve brisa noturna começar a soprar, momento em que se levantava e voltava para o escritório ou então para seu quarto, onde ficava deitado, muitas vezes simplesmente sem pensar em nada.

Nos minutos em que estava sentado de frente para o sol, todo dia se perguntava o motivo de não levantar e sair da casa, se encontrar com sua esposa, com seus filhos, com o tempo que se perdeu. Divagava sobre as coisas que poderia estar fazendo, os lugares que poderia conhecer. Os erros e acertos que cometeria.

Nessas divagações o tempo simplesmente se esvaía e nada mudava. E a vida simplesmente corria lá fora, do outro lado, por que do sol, da janela, dos jardins e de um homem triste ela não depende.


Não dêem muita atenção ao Tiago Barizon | Uma pitacada