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A triste história de JodacilSexta, 27 de Janeiro de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Acho que ninguém sabe mas, durante muitos anos, fui caminhoneiro. Andava de um canto para outro com um Mercedão, cruzando as estradas do Brasil.Numa destas viagens, num posto de gasolina da Rio-Bahia, conheci Jodacil, o personagem principal da história que vou contar. Jodacil era um caminhoneiro paraibano, macho pra caramba, que não deixava uma casa-da-luz-vermelha da estrada sem uma breve visita, na ida ou na volta. Até o dia em que ele conheceu Saturnino, um caminhoneiro baiano, que não era tão macho assim. Das conversas entre os dois, surgiu primeiro uma amizade. Depois, uma sociedade. Cada qual vendeu seu caminhão e investiram numa carreta que, além de carregar mais que os dois caminhões juntos, poderia deixar mais tempo livre com a divisão de tarefas. Passaram então a viajar juntos, feito Pedro e Bino. E era exatamente assim que eram conhecidos nos postos de gasolina, nas festas de caminhoneiros e entre os sócios do Siga Bem. Até que, de tanta amizade, Saturnino, que como já foi dito não era tão macho assim, conseguiu convencer Jodacil de que as visitas aos lupanares poderiam ser substituídas por algumas intimidades entre os dois ali mesmo na boléia da carreta. E, de tantas intimidades, acabaram se apaixonando. Casaram-se numa cerimônia intimista no terreiro de candomblé que a família de Saturnino freqüentava na Bahia, onde ele era filho-de-santo. Mas, um belo dia, quando o pneu da carreta furou numa viagem entre Goianésia e Goiânia, Saturnino conheceu Lurdes, uma das meninas dos lupanares que Jodacil outrora freqüentara. Era uma menina nova, mas já cansada da profissão, que queria arranjar um macho para pagar o tratamento dos incisivos cariados em troca de lavar roupa, cozinhar e dar prazer. E Lurdes fez a cabeça de Saturnino. Tanto que logo depois ele desfez a sociedade e o casamento com Jodacil. Comprou uma caminhonete e passou a fazer entregas regionais em Feira de Santana. Nada mais de grandes viagens, só para ficar perto da mulher e dos filhos que logo começaram a vir ao mundo. Jodacil então se tornou um ébrio. Torrou o dinheiro do fim da sociedade com a cachaça. Passou a viver nas estradas, viajando de carona, dormindo e bebendo nos botecos dos postos de gasolina. Para arrumar dinheiro, prestava favores dos mais diversos aos caminhoneiros que lhe davam carona. Dias depois de contar a mim essa história, ouvi falar de um atropelamento na mesma Rio-Bahia. Não tinham identificado o morto, mas pelas vestimentas via-se que era um mendigo. Segundo o caminhoneiro que o atropelara, ele tinha se jogado na pista. Quando vi as imagens da TV Bahia, reconheci a camisa do 4 de Julho de Piripiri e a calça lilás que Jodacil usava no dia em que conversei com ele. |