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A origem das espécies
A origem das espécies
Segunda, 2 de Janeiro de 2006
* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais
Ao amanhecer era um gato. Mas não um mero felino caseiro, já que viveu em pleno Egito antigo, onde levava sua rotina de Deus. Sem dúvida foram as melhores sete vidas de todas as que teve. Porém a queda dos faraós fez com que ele também fosse ao chão. Caiu de pé, como qualquer gato, mas, enfim, caiu e perdeu-se sob as areias imemoráveis do tempo.
Antes do meio-dia, foi um cavalo e comia do capim que o Império Romano lhe dava. Participou de batalhas históricas, contra exércitos também poderosos. Anexou territórios, subjugou populações inteiras, ampliou fronteiras e conquistou um mundo até então desconhecido. Mas por fim, pereceu pela lança do inimigo e nunca foi reconhecido pela História, pois era apenas um cavalo, com bons dentes até, mas sem patente.
Pouco depois do almoço, já era uma ave exótica que vivia na França, em uma sala onde reuniam-se filósofos e outros pensadores. Lá, testemunhou teorias inovadoras para a época e as repetia em sua língua de pássaro colorido. Alguns diziam que sua bela plumagem também iluminava o ambiente, ajudando os homens a teorizar sobre a vida, a morte e os mistérios de ambas. Mas ele queria mesmo era saber das sementes de girassol que lhe atiravam. Seu fim veio naturalmente, após muitos anos de convivência com as mentes mais avançadas de seu tempo.
Na metade da tarde, teve uma vida de cachorro. Mais precisamente de cão pastor na Alemanha nazista. Em sua mente de cão foi fiel aos homens a vida toda. Invadiu a Polônia e a França, ladrando em nome do Füher. Cão valente, nunca se deixou assustar com as explosões, farejando o sangue e a pólvora nos campos de batalha. Uma rajada de metralhadora pôs fim à sua vida e à de todo o seu pelotão, em uma trincheira enlameada, debaixo de uma forte chuva.
O sol já estava para se pôr quando viveu como homem. Aliás, homem poderoso, rico e influente. Diretor de um conglomerado industrial, dividia o espaço nos jornais entre as colunas sociais e as muitas matérias que denunciavam suas empresas como as mais poluidoras e destruidoras do meio ambiente. Nunca se importou, pagando as multas que vez por outra o Terceiro Mundo lembrava de lhe cobrar. Um ataque cardíaco o levou relativamente jovem.
Já é noite, e ele hoje vive adormecido em sua consciência de árvore. À espera de que seu destino se revele mais uma vez...
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