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200 anos de misericórdiaDomingo, 7 de Maio de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Nos quatro cantos daquela pequena cidade, reza a lenda de que dona Amábile tem mais de 200 anos. Quem levantou a lebre foi o seu ex-genro, falecido há um quarto de século. De acordo com os relatos, ela havia desaparecido por muitos anos e todos davam como morta.O reaparecimento foi no mínimo curioso. Numa certa manhã, sr. Nogueira e sua esposa Diva – filha de dona Amábile – acordaram e foram surpreendidos com a mesa do café da manhã colocada, torradas de pão recém assadas, gemada batida e café fresquinho. Na cabeceira da mesa, a anciã segurava uma xícara. Exibia uma túnica negra, cabelos grisalhos e grande quantidade de maquiagem no rosto, o que completava o toque assustador de sua aparição. Nas rodas de amigos, Nogueira confessava que o susto ao revê-la só não foi maior do que quando ela informou que voltaria a morar com eles. Antes de se tornar uma lenda pelo sumiço e posteriormente pela idade avançada, dona Amábile era famosa pelo temperamento explosivo. Bastava alguém dizer algo que incomodasse para ela soltar seu grito agudo e peculiar de “misericórdia”, seguido de um tremelique forçado nos ombros e uma seqüência interminável de desaforos ao desafeto. E seu alvo preferido era sempre o Nogueira. Ela dizia não suportar a sua presença e odiava o casamento da filha. Nogueira era sujeito pacato, desses que não costumam retrucar para defender a razão. Eram raras as vezes em que perdia a calma e encarava uma discussão com a velha. E isso a instigava. A própria filha falava para o marido que achava que dona Amábile gostava de testar a sua paciência. Mas apesar de ela ter retornado com as mesmas manias, o fato mais relevante dessa história é mesmo a sua idade. Pelas contas do sr. Nogueira, quando ela voltou devia estar com mais de 140 anos. Dizia ele: “aquela velha quando sumiu já era centenária e ficou no além-mundo exatos 40 anos, é incrível, vaso ruim não quebra”. Diva morreu sete anos após o reaparecimento da mãe. Alguns médicos acreditam que o choque ao encontrar novamente dona Amábile causou um distúrbio em seu sistema nervoso. Diva nunca mais foi a mesma e em pouco tempo começou a definhar. Após a morte da esposa, Nogueira disse à dona Amábile que deixaria ela com a casa e que ele ia viver em outro lugar. “Misericórdia”, gritou ela, e com os ombros em constante movimento disse que ele não poderia largá-la ao deus-dará. Nogueira agüentou o tranco por quinze anos. Depois acabou se mudando mesmo. A gota d’água foi uma invasão da velha em seu quarto numa madrugada. Dona Amábile ouviu sussurros e gemidos, ficou certa que Nogueira havia trazido outra mulher para a casa e quis surpreendê-lo. Mas encontrou o genro deitado sozinho na cama, assistindo a um filme erótico. “Misericórdia”... Nem após a mudança, Nogueira conseguiu se livrar de dona Amábile. No começo eram visitas esporádicas. A velha alegava saudade da filha e queria encontrar Nogueira para rememorar alguns momentos. Depois, passou a freqüentar a casa com periodicidade semanal. E no fim da vida de Nogueira, não se sabe bem como, mas a velha estava morando lá. Nogueira fechava as portas, janelas e até mesmo o alçapão. Certificava-se de que ela não estava dentro da casa e só depois desse ritual ia dormir. No dia seguinte, lá estava dona Amábile, o aguardando para o café-da-manhã. Nogueira se foi, já a velha... Não é fácil encontrá-la. Mas de tempos em tempos, para apagar o boato de que finalmente morreu, acredita-se que dona Amábile dá o ar da graça no cemitério da cidade. Dizem que frustrada com o fato de nunca ter tido um neto, aquela senhora pálida, de costas curvadas e trajando a manta negra já bastante gasta ajoelha aos pés do túmulo da filha e do Nogueira. E após gritar misericórdia dá início à série de insultos. |