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Vida dura
Vida dura
Terça, 7 de Novembro de 2006
* Texto publicado originalmente na seção Na sala de espera
Teco é um dedo. Irmão do Neco, Deco, Leto e Tupãzinho. Mas, ao contrário dos seus irmãos, Teco é um dedo infeliz. Tudo porque Teco não teve opções na vida. Já nasceu com seu destino traçado. Teco é um dedo-duro.
Apenas isso já seria suficiente para Teco ser infeliz. Afinal, o dedo-duro não gosta de sua profissão. Preferia até ser ascensorista, preso num elevador, do que ter de ficar entregando seus semelhantes por aí. Mas ser um dedo-duro ainda não é a pior parte para Teco.
O que deixa Teco ainda mais infeliz é ser um dedo-duro do Coisinha, um ex-assaltante fracassado. Baixinho, fracote, feio e não muito esperto, Coisinha foi preso diversas vezes, antes de mudar de lado e começar a trabalhar como alcagüete para a polícia.
Ironia do destino, Coisinha, talvez pelo estresse de suas profissões, talvez pelos traumas psicológicos que teve na vida, é brocha. Um dedo-duro brocha. Em função disso, desprezava Teco, que o fazia sentir-se ainda pior.
Morfina: Teco, como tem sido a vida de dedo-duro de um brocha? Teco: Nada fácil, nada fácil. Enquanto meus irmãos são bem tratados, eu fico esquecido. Chego a temer pela minha vida.
Morfina: Por que temer pela vida? Teco: Bem, o Coisinha é um duro nessa vida, e sozinho. Então ele faz tudo em casa, inclusive cozinhar. E já o flagrei com a faca na mão algumas vezes me olhando esquisito.
Morfina: Mas se ele o cortar fora, não perderia o ‘emprego’ com a polícia? Teco: Meu medo é um dia ele querer voltar ao crime. De repente não precisaria de mim, a não ser para cutucar o nariz. E saber que a vida poderia ser bem mais fácil...
Morfina: Como assim? De que maneira sua vida poderia ser mais fácil? Teco: Oras, o Coisinha tem esse problema, sabe, com as mulheres. Então eu, como um dedo-duro, poderia ser mais útil, entendeu?
Morfina: Lógico. Bem, o que você espera da vida daqui para frente? Teco: Por enquanto só espero me manter vivo. É pouco, mas para mim já é o bastante.
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