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Meu sonho é trabalhar como Pense Bem

Segunda, 18 de Outubro de 2004

* Texto publicado originalmente na seção Na sala de espera

Carolina é uma simpática urna eletrônica modelo 1998, cheia de histórias para contar. Apesar de estar descansando em um depósito do TSE no interior do Rio de Janeiro, concordou em dar esta rápida entrevista para a equipe do Morfina. Veja, a seguir, o que essa sábia máquina acha de seu trabalho e quais são os seus sonhos.

Morfina: E aí Carolina, correu tudo bem nessas últimas eleições?
Carolina: Olha, na maioria das vezes sim. Tem os velhinhos e aquelas pessoas meio lesadas que não lembram o número do candidato e ficam digitando até aparecer a foto certa. Eu fico me perguntando: como esse pessoal fazia quando tinha que votar no papel? Na minha opinião o voto não deveria ser obrigatório, tem muita gente que não sabe absolutamente o que tem que fazer quando chega na minha frente.

Morfina: E o que acontece nesses casos?
Carolina: Olha, geralmente a pessoa acaba tentando, tentando, e no fim anula o voto sem querer. Os mesários não podem ajudar, você sabe né? Mesmo assim, já vi uns que se propuseram a dar uma assistência e acabaram escolhendo deliberadamente o candidato pela pessoa. Não gosto dessas coisas.

Morfina: Você acha que as urnas eletrônicas tornaram as eleições mais confiáveis?
Carolina: De jeito nenhum. Não quero cuspir no prato em que como, mas ninguém pode ter certeza se essas urnas por aí computam o voto direito. Eu garanto que sou honesta, mas e as outras? Antigamente, se alguém tivesse dúvida, era só pegar a cédula e conferir, estava lá, documentado. Agora são só uns números processados por um programa que ninguém sabe direito como funciona. Acho que as pessoas deveriam ficar com um pé atrás.

Morfina: Não tem medo de sofrer represálias levantando essas hipóteses?
Carolina: Medo nenhum. Tenho muita consciência política e acho que a democracia vem acima de meus interesses pessoais. De qualquer modo, não temo perder o emprego. Estou inclusive analisando uma proposta para trabalhar como Pense Bem. Sei que isso está meio fora de moda, mas é um sonho que tenho desde que nasci.

Morfina: Mas da vida de urna eletrônica, não tem nada que te agrade?
Carolina: Gosto muito de visitar as escolas, quando eles ensinam as crianças a votar. Mas o melhor são as viagens. Muita gente não sabe, mas as eleições de diversos países são feitas com urnas eletrônicas aqui do Brasil. Assim, já fui para o Paraguai, Argentina, Equador e Cidade do México. É muito gratificante.

Morfina: Algo que te incomoda?
Carolina: Não gosto dos debochados que acham que urna eletrônica é livro de piada. Trabalhei em Barra Mansa no primeiro turno e lá tinha um tal de Palhacinho da Cidade, do PT do B, que tinha até um slogan “Palhaço por Palhaço vote em mim!”. O que teve de gente que digitou o nome do cidadão só para dar risada não está escrito. E o pior é que nessa brincadeira alguns e acabaram votando nele sem querer. Tenha dó né? Eleição é coisa séria.

Morfina: E qual a sua orientação política?
Carolina: Olha, por causa da minha ocupação, acho meio antiético falar sobre isso. Só não gosto do Maluf. Isso eu não tenho vergonha de falar. Ele é ladrão, desvia dinheiro e ainda consegue se candidatar. Juro que o meu teclado dói quando vem um louco e digita 11. Mas o que eu posso fazer? Todo mundo tem o direito de votar em quem quiser.

Morfina: Tem mais alguma coisa para dizer antes de voltar para o depósito?
Carolina: Ah… Estou querendo mudar de área. Se eu não conseguir realizar meu sonho de virar um Pense Bem, aceito outra coisa, calculadora, o que for. E queria falar também que estou gostando muito do trabalho de vocês aí do Morfina. Os textos estão cada vez mais bem escritos e alguns são muito engraçados. E manda um abraço para o Macaco Chicão também, fala que qualquer dia apareço no laboratório dele para uma visita. É isso aí. E não esqueçam de votar com consciência no segundo turno. Shalom!

inventado por: Robinson Melgar | Eba! 4 já me deram atenção