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Em branco
Em branco
Terça, 26 de Setembro de 2006
* Texto publicado originalmente na seção Na sala de espera
O Morfina, em seu esforço por denunciar a crise social e de identidade em que vive a humanidade, publica mais uma entrevista polêmica.
Nosso entrevistado hoje é o Branco. Engana-se quem pensa que seja o Branco Melo, dos Titãs, ou então Branco, ex-jogador e atual dirigente do futebol brasileiro.
Branco é uma folha de papel. Trabalha num caderno comprado em 1984 por um escritor fracassado. Ou melhor, por uma pessoa fracassada. Que um dia pensou em ser escritor.
Morfina: Branco, como tem sido sua vida nestes mais de 20 anos? Branco: Normal.
Morfina: Mas você acha normal ficar tanto tempo sem ser utilizado? Branco: Sim.
Morfina: Você gostaria de ter sido utilizado? Não se sente inútil? Branco: Não.
Morfina: Se não fosse uma folha de caderno, gostaria de ser outra coisa? Branco: Escritor.
Morfina: Opa, uma revelação, finalmente. Escreveria sobre o quê? Branco: A inutilidade das coisas diante do fracasso humano frente aos problemas criados pelos próprios inúteis homens.
Morfina: E por que não escreve? Branco: Não posso.
Morfina: Censura? Branco: Sou uma folha. Escrevem em mim. Ou deveriam. Não eu escrever. Mas, para algumas besteiras, é melhor ficar em branco mesmo.
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