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"É muita mentira junta"
"É muita mentira junta"
Segunda, 25 de Outubro de 2004
* Texto publicado originalmente na seção Na sala de espera
Carlitos é um pequeno telefone fixo. Preto, de disco, com um fio enrolado com mal contato, o que o torna um pouco chiado. Ele diz que é início de asma – aliás, ele parece meio hipocondríaco de tanto reclamar. No rol de seus problema estão hérnia de disco crônica, má ligação dos tendões entre outras coisas que ninguém entende devido ao chiado.
Mas, claro, o que importa não é bem seus problemas de saúde. Carlitos resolveu conceder uma entrevista exclusiva ao Morfina por um único motivo: Toninho, seu dono. Toninho é um contador de 54 anos que vive marcando encontro às escuras nesses chats da vida. "Ele entra, conversa com algumas almas solitárias, marca encontro e flambers! Flambers!", diz o velho telefone preto. A seguir, Carlitos abre o jogo e conta, entre um chiado e outro, porque diabos Toninho passa 6 horas diárias de sua vida no telefone.
Morfina: Você diria que Toninho é um viciado em chats por telefone? Carlitos: Diria. Diria muito mais até, mas como minha voz não tá muito boa hoje, não vou me prolongar. Ele é sim um viciado e precisa de ajuda.
Morfina: Você já tentou ajudá-lo? Carlitos: Uma vez quase o peguei distraído. Ele discou para o Happy Line, para ver se descolava alguma baranga pro final de semana, e eu tentei desviar a ligação para o CVV. Deu quase certo. Quando percebi, ele estava xavecando a atendente e, o pior, já quase a convencia a sair com ele. Derrubei a linha.
Morfina: Mas por que você acha que é prejudicial a ele essas ligações? Carlitos: Eu não acho, pelo contrário. Acho que isso é prejudicial às garotas que caem na lábia dele. É muita mentira junta. Como se sabe, ele é contador. Mas quando liga num desses serviços de encontro sempre diz que é guarda-florestal. Às vezes, ele fala que é goleiro reserva do São Paulo também. Já ouvi falar, tambérm, que fazia parte de uma banda de rock chamada "Laguna". As meninas caem feito patinhos e tenho pena delas.
Morfina: E ele se dá bem nesses encontros às escuras que arruma via você? Carlitos: Depende do xaveco utilizado. Quando ele fala que é da Laguna, sempre sobram umas gordas metaleiras pro final de semana. Quando ele diz que é guarda florestal, costuma descolar umas garotas mais alternativescas, que cheiram a incenso barato. Enfim, de uma forma ou de outra, ele sempre traz as garotas para o apartamento.
Morfina: E consegue, digamos assim, conhecê-las no sentido bíblico? Carlitos: Como você sabe, eu sou um telefone fixo e fico na sala. Ele costuma arrastá-las para o quarto e, daqui, eu não vejo o que acontece lá. Já perguntei a alguns objetos de lá, mas ninguém me diz. Dizem que eu não sou confiável, que posso estar grampeado e que poderiam ser demitidos de falassem algo. O único que sempre quis me dizer algo mas que, infelizmente, não consegue é o criado-mudo. Ele é mudo até não poder mais.
Morfina: Essa piada foi meio infame, não, Carlitos? Carlitos: Sim, foi. Mas é que estou tentando entrar no elenco de apoio da Praça é Nossa. Já tenho alguns contatos com o Canarinho e acho que posso me dar bem lá. Aliás, se eu der certo nisso, posso depois estrelar um quadro fixo, no qual sou um telefone esfomeado chamado TeleFome e que fico dando em cima da lista telefônica do Carlos Alberto e... tum tum tum
(nesse momento, a reportagem do Morfina resolveu, por bem, encerrar a chamada e a entrevista)
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