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Cutelo não tem este nome por acaso

Segunda, 14 de Novembro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Na sala de espera

Mobilizamos toda nossa equipe em busca da foice, aquele facão que a morte carrega para cima e para baixo atrás de suas vítimas. Como a foice é um instrumento muito ocupado e cheio de trabalho a fazer, não conseguimos sequer dez minutos de sua agenda para uma breve entrevista. Como a reportagem do Morfina nunca desanima diante das adversidades, buscamos uma arma similar e que guarda consigo os mesmos propósitos que a velha foice: o cutelo. Acompanhe a entrevista que fizemos com o cutelo João, promovido recentemente a primeiro suplente da velha foice Analgisa:

Morfina: Boa tarde, cutelo João. É um honra tê-lo conosco em nosso site. Gostaríamos, no entanto, que o senhor mantivesse uma distância segura de nosso corpo jornalístico, já que ninguém aqui pretende escorregar no quiabo nos próximos meses.
Cutelo João: Servimos bem para servir sempre. Espero que, quando surgir uma vaga no quadro de colaboradores de vocês, eu seja convidado para ser colunista semanal, já que minha veia de escritor é bastante pulsante.

Morfina: Mas você não está feliz com os rumos de sua carreira ao lado da Morte? Pelo andar da carruagem, provavelmente você tomará o nobre lugar da foice dentro de poucos anos, já que ela está velha e enferrujada.
Cutelo João: Olha, meu filho, eu não faço questão nenhuma de seguir esta carreira. É um trabalho que rende pouco dinheiro, ao contrário da vida de escritor. Nos finais de semana, quando tudo o que eu gostaria é a tranqüilidade ao lado de minha família, acabo tendo que fazer bico em açougue e passo horas a fio preparando picadinho de coxão duro. Haja corte. E eu detesto ser afiado.

Morfina: Qual foi o morto mais famoso que você levou desta para uma melhor?
Cutelo João: Como sou vice, e vice neste país não vale nada, acabo sempre ficando com a sobra do tacho. A foice é quem leva a melhor e acaba por abotoar o paletó dos famosos. Ainda assim, numa manhã de 2004, decidi sabotar os trâmites legais e levei o apresentador João Kleber para a terra dos pés-juntos. O problema é que o bicho é tão ruim que nem o Cramunhão quis ficar com ele do lado de lá. Mandou de volta para São Paulo, e meu trabalho foi em vão.

Morfina: Realmente é uma pena que sua iniciativa tenha sido frustrada, porque é nítido e claro que você visava apenas o bem da humanidade com tal atitude.
Cutelo João: Sim, eu sou um sujeito bastante altruísta. É por isso que eu faço trabalho voluntário em refeitório de escola pública. Rapaz, não queira saber que tipo de carne eles usam para fazer a merenda... Se não me engano, vi até o braço do Pablo Escobar sendo moído para fazer bolinho.

Morfina: Mas esta é uma denúncia muito séria, cutelo João. Tem certeza que deseja registrar isto perante a grande imprensa?
João Cutelo: Que grande imprensa? Tá querendo enganar a quem, meu filho? O Morfina é um site furreca que não atinge nem a comunidade alternativa de São João Clímaco. Ainda assim, quero esclarecer uma coisa: eu ACHO que era o braço do Escobar, não tenho certeza. Talvez fosse a perna esquerda. Eu estava num ângulo meio ruim, não consegui ver direito.

Morfina: Para terminar, você quer deixar alguma mensagem para todos que estão lendo esta entrevista e temem a chegada da Morte?
João Cutelo: Eu queria dizer para que todos mantenham a calma, porque eu não sou um sádico que sai por aí passando o corte a torto e a direito. Por exemplo, eu nunca lasco a genitália masculina, porque também sou macho e respeito a virilidade alheia. Sou um cutelo de bem. Mas não custa dizer para vocês protegerem seus pescoços, né? Nunca se sabe, vai que eu acordo num dia de mau humor.

por Vanessa Marques | 6 alguéns