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Com frisos

Quarta, 4 de Janeiro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Na sala de espera

Ferreirinha e Aldo eram amigos inseparáveis. Eram, porque a Dona Morte fez questão acabar com essa amizade. Aldo, o bam-bam-bam do Samba de Vila Clotilde, não suportou uma crise hepática e morreu.

Desde então, Ferreirinha, um copo americano, com frisos, que por muitos anos esteve ao lado de Aldo, perdeu o amor pela boemia. Foi abandonando a noite e o álcool. Nos últimos tempos, inclusive, Ferreirinha encontrou um novo emprego.

Com esperanças de reencontrar seu antigo amigo, Ferreirinha passou a trabalhar com Dona Salete, a médium de Vila Clotilde. Até hoje garante já ter sido o canal para vários espíritos, mas continua sem conseguir bater um papo com seu amigo Aldo.

Morfina: Ferreirinha, por que abandonar a boemia, se isso era tudo que Aldo gostava?
Ferreirinha:
Porque sem ele não é a mesma coisa.

Morfina: Vocês tinha alguma outra relação além da amizade? Nunca vi tamanha dedicação.
Ferreirinha:
Está me estranhando é? Não posso ter um amigo apenas? Sem ele eu curtia a boemia. Conhecia muitas mulatas, não voltava para casa sozinho. Agora prefiro ficar com Dona Salete.

Morfina: Por que prefere ficar com ela?
Ferreirinha:
Veja bem, além do trabalho e do bom salário, ela me trata bem. Gosta de mim. Tem carinho por mim. Depois do trabalho, geralmente vamos para o sofá ver tv. Não são raras as vezes em que durmo em seus peitos.

Morfina: E o trabalho, gosta? Alguma esperança de encontrar o Aldo ainda?
Ferreirinha:
Gosto sim. Já tive contato com almas interessantes, como uma antiga mulata amante do Aldo. Ela, inclusive, está tentando nos ajudar. Mas parece que ele fugiu de vez. Enquanto não o encontro, vou aproveitando o conhecimento adquirido para fazer umas anotações. Quero escrever um livro.

Morfina: Quando tiver algo nos avisa? Poderíamos lançar pelo Morfina.
Ferreirinha:
Lógico, seria muito interessante. Legal fazermos esse contato. Podemos ser amigos. Eternamente.

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