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As Roupas de Baixo de Chacinão

Quarta, 5 de Abril de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Na sala de espera

Confira abaixo trechos da controversa entrevista com Gustava, a cueca filha única de Morélio Chacinão, o maior assassino por aluguel de Guarapiranga e região:

Morfina: Como é ser a cueca de um assassino?
Gustava: É como ser a cueca de um mendigo, de um lixeiro, de um maratonista, de um pescador ou qualquer outra profissão. Em outras palavras, é um inferno.

Morfina: E qual é a diferença básica entre ser a cueca de um pescador e de um assassino?
Gustava: A diferença é que o assassino tá a mando do Bátema.

Morfina: Por gentileza, será que poderíamos dar seguimento a esta entrevista sem fazer uso de falas do filme "Bátema - Feira da Fruta"?
Gustava: Mas então, respondendo à sua pergunta anterior, a diferença é que o pescador se locomove durante o dia, e o assassino durante à noite. Como não tenho ouvido, não me incomodo com o barulho de tiroteio ou coisas assim. Não tenho nada de interessante para lhe falar, filho.

Morfina: Qual foi o momento mais perigoso que você viveu em todos estes anos sendo a única cueca do Chacinão?
Gustava: Foi quando a cana chegou. Eu disse "chefe, chefe, a cana!", no que ele respondeu: "a cana, filha dumas puta, como é que me acharam aqui?". Até pensei em tatuar esta frase no traseiro, de tão perfeita que ela é. Mas perde um pouco da fantasia quando lida, porque uma boa entonação verbal é tudo nesta vida.

Morfina: Engraçado. Já ouvi falar desta ocorrência em algum lugar...
Gustava: Pois é, rapaz. Este caso ficou famoso no país inteiro. Recentemente descobri que um gambé estava passando a vara na mãe e na mulher do Chacinão. Mas eu disse para o chefe ficar tranquilo, porque eu estou no encalço do filho das puta que as comeu.

Morfina: Quanta aventura, hein?
Gustava: Nem fale. A minha vida é um perigo! Um perigo! Já tive que beber até líquido pra cair pinto! Ainda bem que não tenho pinto.

Morfina: E você tem pais?
Gustava: Tenho. Vira e mexe eles se vestem para o baile dos enxutos. Mas não mantenho muito contato com eles, não. Eu sou um viado.

Morfina: Você gostaria de deixar alguma mensagem edificante para os leitores do Morfina?
Gustava: Gostaria, mas não posso. O camburão está esperando.

Morfina: Não vai embora não, sua gostosa.*

*Neste momento, constatada a contaminação da equipe do Morfina com as falas do filme "Bátema - Feira da Fruta", a entrevista teve que ser interrompida para um processo urgente de desintoxicação e recomposição do vocabulário primário de comunicação.



por Vanessa Marques | alguém!