Blogs do Morfina
Menu Lateral
Perticipe do Morfina Sobre o Site Fala com a gente Acesso o arquivo Participe do Morfina
Home > > Picolés Humanos

Picolés Humanos

Segunda, 3 de Julho de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Receita médica

E eis que o inverno chegou, e com ele também os casacos mofados, os cachecóis amarelados e as terríveis meias de lã que as pessoas usam por baixo das calças com uma carga de culpa semelhante à de quem acabou de cometer um assassinato. Mas não é para menos. Elas são horrorosas mesmo. Isso sem falar do povo que vai trabalhar com o pijama por baixo da roupa, em uma alusão quase doentia à infância, quando a mãe nos obrigava a ir ao colégio com as pernas gordas e bem protegidas do frio. Mas foi-se o tempo, convenhamos.

Frio é tempo de desenterrar nossos piores segredos que passam o resto do ano escondidos nos antros mais escuros do guarda-roupas. É quando colocamos para fora aquela bota que saiu de moda ainda na década de 80, quando ameaçamos usar polainas, quando abusamos dos indefectíveis casaquinhos com golas de pelúcia. E haja mal gosto. Outro dia ouvi não sei quem dizer na televisão que o brasileiro não sabe se vestir para o inverno, já que passamos boa parte do ano sob um sol escaldante. Eu concordo e completo: o brasileiro não sabe se vestir em estação nenhuma, mas no inverno ainda existe o inconveniente do cheiro de mofo nas vestes.

Mas inverno não é só moda. Inverno é também fondue de caixinha aquecido na panela de miojo, chocolate quente e ralo feito com nescau, TV embaixo das cobertas com o cachorro esquentando nossos pés e, mais do que tudo, época de caça implacável a um par. Ninguém quer passar os dias mais frios do ano sem umas mordidinhas na orelha, dentre outras coisas impublicáveis neste horário.

Pra mim, inverno significa basicamente uma coisa: são os dias do ano em que minha circulação vai para o brejo, meus pés e mãos congelam e eu me sinto totalmente inapta a encostar em outras pessoas e invadir de maneira tão gelada suas bolhas. Eu sei que isso tá parecendo papo pra psicólogo, mas é verdade. É um fenômeno físico. Eu viro um picolé de nata: branca e gelada. Vai ver que é por isso que eu já fui apelidada de coisas pouco amigáveis até mesmo por certos editores deste site.

Sendo assim, deixo aqui registrado o meu mau humor por conta do inverno. Mas, como temos que atravessá-lo de qualquer forma, que ao menos seja na companhia dos excelentes textos dos nossos colunistas. E que venha o verão logo, por misericórdia.

por Vanessa Marques | alguém?