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Geraldo e o Agepê ocultoTerça, 16 de Novembro de 2004* Texto publicado originalmente na seção Receita médica Não me lembro da última vez que tive amnésia alcoólica. Mas uns amigos lembram. Não foi nada bonito, garanto. Eles disseram que errei a cadeira algumas vezes e cai sentado no chão, contei histórias sinistras do tipo “aí a fanha começou a fazer um boquete e falar ‘ai que au ostoso’”. Qualquer coisa que eles digam que eu fiz ou falei eu acredito, na minha cabeça só ficou um grande branco.Quem não está acostumado a beber não bota muita fé na existência da amnésia alcoólica. Mas ela existe. Para quem duvida e quer comprovar na prática eu recomendo a bebida que mais vezes me proporcionou essa experiência: tequila. De preferência, tome cerveja também. Vire quatro, cinco, seis doses de tequilinha e me fale. Vai ficar apenas um vazio na sua memória. Além dos milhares de neurônios mortos. Mas tudo tem um lado bom nesta vida. Foi por causa da amnésia alcoólica que meu amigo Geraldo arrumou a sua namorada atual. Ele é um cara direitinho, nem bebe muito, geralmente só uma cervejinha. Mas naquela noite eu propus o famoso “Desafio Tequila”. Como todo mundo na mesa aceitou, acho que o Geraldo achou chato ficar de fora. Sal. Limão. Bebeu. Fez cara de nojo e quase vomitou. Nossos amigos começaram a rir do coitado e essa provocação foi demais para ele. Mais uma. Mais outra. Tomou a última, levantou e disse “agora eu vou bebericá uns aperitivo de mulé”. Não vi mais o cara. Quando o encontrei, num outro dia, me falou que não lembrava de nada daquela noite, só de acordar sentado no vaso sanitário às 6 da manha. Disse também que encontrou em seu bolso um guardanapo com um número de telefone, um nome e uma frase. Mostrou o papel: Cláudia 9857-2583 Me liga Agepê Perguntei que história essa de Agepê, ele não tinha a menor idéia. Depois de uns minutos de conversa, achamos que a única solução era ligar para ver do que se tratava. Ele é um cara tímido, e também estava com medo de que a menina fosse uma tremenda baranga. Mas insisti e ele ligou. Saí de perto para não atrapalhar. Depois ele me contou a história. A menina falou que ele tinha chagado nela, de braços abertos, cantado “deeeeeeeeeeeeeixa eu te amaaaar, faz de conta que sou o primeeeeeiro”. Por algum motivo muito estranho ela achou aquilo uma graça e abriu os braços para ele também. Aí eles se beijaram. Ele falou que queria pega-la no colo, deita-la no solo e faze-la mulher. A menina achou engraçado. Na hora que ele falou que precisava sair para vomitar, ela pegou o guardanapo e anotou o telefone dela. Ele não voltou, acabou dormindo no banheiro. E foi por causa desse telefone marcado às pressas em um guardanapo que eles marcaram um encontro. Se deram bem. Para economizar história, eles acabaram ficando juntos. Ele nunca mais bebeu tanto, apesar dela insistir. “Ela diz que eu fico mais divertido bêbado”, me disse o Geraldo um dia. Acho que essa Cláudia tem alguma espécie de atração mórbida por bêbados, sei lá. Quem sou eu para julgar. Mas, eles estão bem. Sempre lembro dos dois quando escuto o meu MP3 de “Deixa eu te Amar”. “Quero ir na fonte do teu ser / E banhar-me na tua pureza / Guardar em pote gotas de felicidade / Matar saudade que ainda existe em mim”. Coisa linda.
inventado por:
Robinson Melgar | Oi. Fala comigo
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