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Bebida Cristã.
Bebida Cristã.
Terça, 8 de Agosto de 2006
* Texto publicado originalmente na seção Receita médica
Não conheço a origem da expressão “bebida batizada”. Sei dos seus efeitos. Apenas uma pequena dose desse tônico é suficiente para esquecer que você tem pai, mãe ou dignidade. Eu mesmo já me espatifei no chão ao tentar sentar em cadeiras imaginárias sob o efeito de uma aguardente de cacto cristã.
E tinha que ser cristã, não tinha? As coisas não se batizam em nome de Cristo? Portanto, alguma boa alma foi lá e falou “tequilinha, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém”. Uma cena realmente comovente. O problema é que como o cego que vê, o morto ressuscitado, os pães e peixes multiplicados, tudo que é tocado por Jesus adquire alguma propriedade mágica.
No caso da bebida, o milagre é que ela fica muito mais potente. Creio que apenas uma garrafa desse maravilhoso líquido é capaz de deixar todos os passageiros de um coletivo de pileque. Coisa que, aliás, seria bem engraçada. Voltando ao ponto, não se trata de um porre normal, longe disso, a pinga batizada deixa as pessoas com uma personalidade totalmente nova, que só existe no período em que dura o efeito.
Nessas horas se realiza a profecia do Antonio Conselheiro. O sertão vira mar e o mar vira sertão. Assim, adulto vira criança, tímido vira comunicador, santinha vira puta, inteligente vira débil mental. Só bicha que não vira homem, já que sabemos que isso, enterro de anão, cabeça de bacalhau, filhote de pombo e afro-brasileiro com irmão gêmeo são coisas que não existem.
Iria falar que texto ruim aqui no Morfina também é coisa que não existe, mas acho que vi um outro dia, numa encruzilhada, à meia-noite. Não tenho certeza, poderia muito bem ser o capeta. Ou mesmo uma miragem, já que nesse dia o conhaque que eu tomei estava meio estranho. É, meu irmão, bebida batizada é foda. Leia os textos dessa semana e comprove!
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