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Viajando no Tempo

Segunda, 3 de Outubro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Marquinhos, ainda embriagado pelo sono que consumia seu cérebro, abriu lentamente os olhos e sentou-se à beira da cama. Ainda tonto, notou um enorme rombo na parede do quarto. No chão, próximo à penteadeira, um meteoro. Levantou-se lentamente, cambaleante, e olhou pelo buraco em meio aos tijolos. Dez andares abaixo, no passeio público, tudo corria na mais perfeita ordem: uma velhinha voltava da padaria, um moleque chutava um cachorro e um senhor, de carro, jogava morteiros nas pessoas que aguardavam o coletivo. Tudo muito normal, como em qualquer outro dia. Sentiu falta apenas do rapaz que costumava mirar os pneus de sua moto sobre poças d´água para molhar os transeuntes. Mas isso não chegou a incomodá-lo.

Voltou os olhos para dentro do quarto. O meteoro estava lá, inerte. Sobre ele, um pequeno painel luminoso piscava. Aproximou-se, ainda amedrontado. Notou dois botões, um verde e um vermelho, ambos sem qualquer inscrição. Ficou confuso com aquilo. Foi até a cozinha, recheou meio pão amanhecido com margarina, encheu um copo com café e voltou ao quarto. Fez um gesto como se estivesse oferendo o pão velho ao meteoro, e foi então que levou o primeiro susto: a música-tema da "Praça é Nossa" começou a tocar e uma nova mensagem apareceu escrita no tal painel luminoso. Algo como "sorovinas bulascas". Era "não, obrigado", na língua dos meteoros advindos do futuro. Mas Marquinhos não sabia disso, e ficou apreensivo.

Tentou dialogar com o meteoro e, por incrível que pareça, funcionou. Perguntou o porquê da canção da "Praça é Nossa" e, num português que beirava o risível, o pedaço de pedra explicou que aquele era o hino de boas-vindas em seu planeta. Que quando as honras deveriam ser feitas a algum visitante importante, todas as pedras que participavam da fanfarra de meteoros tocavam com louvor aquela bela música. Marquinhos ficou estupefato. Não conseguia acreditar que justamente sua música predileta era um hino nobre em um planeta distante da Terra. Pediu ao meteoro se poderia ir para o futuro também, mas a pedra titubeou. Nunca um humano havia botado os pés na Cazalbertolândia, seu planetinha do coração.

Marquinhos insistiu. Buscou todas as pedras que tinha em seu aquário e ofereceu ao meteoro como moeda de troca. Não funcionou. Furtou da estante um cristal de São Tomé das Letras e também com ele procurou comprar sua passagem de ida à Cazalbertolândia, mas também não funcionou. Tentou até mesmo barganhar com seu xodó, uma pedra que tirou do rim aos 18 anos, mas o meteoro era ruim de negociação. Não queria nem saber. Mas, quando tudo parecia perdido, o meteoro fez uma proposta: se Marquinhos ajudasse-o a capturar Arnô Rodrigues, ele o levaria junto para seu planetinha. O rapaz aceitou o desafio na hora.

Com entusiasmo nos olhos, Marquinhos correu ao guarda-roupas e vestiu sua fantasia de morte. Não usava aquela roupa há pelo menos quinze anos, estava até meio mofada. Na falta de uma foice, pegou um rodo na área de serviço e rumou aos estúdios do SBT. O único problema seria reconhecer o tal Arnô, já que ele não era um telespectador muito atento ao programa. Para falar a verdade, nunca tinha visto; apenas ouvia a música de abertura e entrava em um transe que durava horas. Mesmo assim, foi. Como era de se esperar, errou o alvo, e acabou levando o Golias no lugar do Coronel Totonho. O meteoro ficou bravo, muito bravo, e disse coisas como "salamaleco onitusa" (não podemos traduzir aqui, afinal a censura do Morfina é livre). Ainda assim, a pedra botou Golias no ombro e voou rumo a Cazalbertolândia. Como castigo, deixou Marquinhos aqui, desolado, e transformou-o em figurante da Praça é Nossa. E que isso tudo sirva para mostrar o quanto um meteoro nativo da Cazalbertolândia pode ser vingativo.



por Vanessa Marques | alguém?