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Uma noite
Uma noite
Quarta, 4 de Outubro de 2006
* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa
Um grito apavorado assim que ele abriu a porta. Mascarado. Caminhou até o meio do quarto. Novo grito da mulher, desesperada. Com violência, ele a jogou na cama. Ela deveria resistir mais. Fazia parte da fantasia. Mas não foi possível.
Logo estavam entre beijos e abraços desajeitados, ele ainda de máscara, última vestimenta que restou, em ambos, poucos minutos depois. ‘Vai bandido, rouba meu coração’, dizia, ou gritava, ela. ‘Seu bandido, bandido, bandido...’, não tinha fim.
‘Bandida’, ele respondia, ela agora também de máscara. Era o fim de uma noite que começou num restaurante, passou por uma danceteria, depois sex-shop, onde foram compradas as máscaras e, fechando, aquele motel.
Tudo por conta dele. Um ‘lord’ durante toda noite. Pagando contas, abrindo portas, puxando cadeiras. ‘Assim você rouba meu coração’, ela dissera antes da brincadeira no motel. Ele sorrindo, tentando não pensar na conta bancária.
Desfalque financeiro que valia a pena, apesar de seu salário modesto naquele escritório mais ainda. Era a primeira conquista desde a separação. Quase um ano sem ninguém. Valia a pena. Pelo menos por uma noite.
No dia seguinte, não valia mais. Trabalhou com o extrato bancário na mesa. Fez diversas contas mentais. Como chegar ao fim do mês. Calculou tudo que tinha gastado com aquela mulher. Tudo que ela havia levado. ‘Bandida’, pensou, já no fim do dia.
Levantou-se e foi embora. ‘Boa noite’, disse, seco, à recepcionista. Um pouco mais velha do que ele. ‘Boa noite’, ela respondeu. E, sem levantar a cabeça, completou: ‘Bandido...’.
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