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Uma história de amor pelo futebolQuarta, 13 de Outubro de 2004* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa Minha carreira de jogador de futebol começou com as partidas jogadas no quintal de terra da minha saudosa mansão do Capão Redondo. Minha rotina era perder todas as tardes para a minha irmã mais nova. No colégio eu também era reconhecido pelo meu talento com a bola. Lembro de uma ocasião em que todas as crianças estavam cobrando pênaltis. Na minha vez o goleiro disse: “o desse aí eu defendo com um dedo”. Aquilo me deixou realmente puto. Tomei distância, me concentrei, corri e chutei com toda a força. Meu pé pegou de raspão na bola, que foi rodando devagarinho até ser parada pelo indicador do cretino. Esse episódio me rendeu o respeitoso apelido de Pé de Pato. Por muitos anos eu seria sempre o último a ser escolhido para entrar nos times. Até o Zé – um amigo meio torto e um pouco retardado – era considerado melhor que eu.Busquei alternativas genéricas, como o futebol de botão e o pebolim. A única coisa que consegui com isso foi mudar o meu apelido de Pé de Pato para Descoordenado. Quando chegaram os videogames modernos achei que tudo mudaria. Com um pouco de treino, comecei a trucidar meu sobrinho jogando Fifa Soccer no Mega Drive. Chapéus, dribles geniais, rolinhos, chutes de fora da área e até gols olímpicos. Mas minha alegria durou pouco. Pouco tempo após completar 9 anos de idade o moleque já era melhor do que eu. Decidi esperar. Achei que ao ficar adulto esse meu problema com o futebol deixaria de atrapalhar minha vida. Mas tudo continua igual, só mudaram as situações. Meus amigos travam discussões de horas sobre que time vai ganhar, qual vai perder, empatar, ser campeão, ser rebaixado, porque o futebol feminino é uma merda e coisas do tipo. Já tentei participar, mas como percebi que só falo besteira sobre esse assunto, desisti. Desenvolvi a técnica de ficar lá, catatônico, sem que ninguém perceba minha presença. Acho que, com um pouco mais de treino, conseguiria levitar ou ficar invisível nessas situações. Além de tudo sou vira-casaca. Há alguns meses, durante uma feijoada, resolvi mudar de time. Fui estimulado por um amigo que falou que “isso não tem problema, eu mesmo já torci para todos os times, menos o Santos”. Assim, decidi deixar de torcer para o São Paulo e virar corinthiano, o que aumentou mais a desprezo dos amantes do futebol por mim. Ultimamente, tenho tentado assistir a alguns jogos e estou participando de um bolão do Campeonato Brasileiro, em que estou na disputa pela lanterna. Mas o que eu podia esperar?
inventado por:
Robinson Melgar | Um quis ser meu amigo
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