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Um Profissional de Ouro

Segunda, 8 de Agosto de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Empresa de família. Jorge prometeu a si mesmo: “nunca mais trabalho em uma!”. Também, não era para menos. O pobre fora colocado para labutar dentro da sala das donas, mãe e filha. Durante o curto período em que suportou o calvário, testemunhou diálogos bastante familiares, como o que segue:

- Mãe, come isto!, imperava a filha demente, com o dedo duro apontado para a mãe e uma catota na ponta do mesmo.
- Blaaaauuurgh..., respondeu a mãe, nauseada.
- Come, mãe! Em tese, isso é parte sua, já que saí de dentro de você!, insistia a maluca, agora com argumentos.

A mãe caiu durinha no chão do escritório. E não foi a única vez que aconteceu algo deste tipo, não. Sempre que a menina iniciava uma frase com a expressão “em tese”, lá vinha bomba. Assim que surgiu uma nova oportunidade, Jorge pediu as contas e alçou um vôo mais ousado: cargo de chefia em uma multinacional espanhola.

Tudo corria bem, com exceção do fato do diretor de operações cultivar a triste mania de cantar Besame Mucho em público. Se tinha platéia, ele logo enchia os pulmões de ar e puxava as primeiras notas. Tinha melodia e cadência, até, mas poderia variar o repertório. Jorge sempre pensava: “ele devia cantar Guantanamera de vez em quando...”. Que nada. Era só Besame Mucho, e ainda por cima na versão ritmada pelo Ray Coniff. O diretor era um sujeito bem específico.

E por ser tão específico, o dito senhor implantou um sistema de cursos dentro da empresa que deixou Jorge de cabelos em pé: aulas de logaritmo em portunhol. Não bastasse querer ensinar logaritmo, que é uma coisa impossível de se entender inclusive em língua-pátria, o sujeito queria ensinar em portunhol, como “una representación de la culturra unida de nuestros dos países”, segundo palavras do próprio. Foi um deus-nos-acuda, até porque ele sempre encaixava um verso de Besame Mucho no meio das aulas e aí ninguém entedia nada mesmo. Como não conseguiu acompanhar a linha de raciocínio do mestre, Jorge levou um cartão vermelho e foi expulso da corporação.

Como chefe de família com muitas contas a pagar, o homem ficou perdido e não sabia mais o que fazer. Foi então que, numa tentativa desesperada, apostou todas as suas fichas e os últimos trocados do fundo de garantia em uma barraca de tangas de crochê em pleno Largo da Concórdia, em São Paulo. Não sobrou pedra sobre pedra naquele lugar. Ninguém imaginou que um cabra seria tão ousado a ponto de comercializar aquelas indecências no meio da rua, à luz do dia. Pois Jorge o fez. Clientes do Brasil inteiro iam até a sua barraca no Brás para adquirir tão bela indumentária. Ficou famoso quando um tal de Gabeira exibiu na TV uma de suas sunguinhas, em pleno horário político. Hoje em dia exporta o material até para a Islândia, mas os esquimós, meio frustrados, só conseguem usar as tangas como roupa de baixo.

por Vanessa Marques | alguém?