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Um Encontro Inusitado

Segunda, 17 de Abril de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Thirteen month old baby, broke the lookin’ glass
Seven years of bad luck, the good things in your past.
When you believe in things that you don’t understand,
Then you suffer,
Superstition ain’t the way

Stevie Wonder - Superstition

Era cedo, tarde, tanto faz. Existia um clima de acaso no ar: fulano, que conhece ciclano, que trabalhou com beltrano e... enfim, essas coisas estranhas da vida. Mas ele não acreditava em destino. Exatamente por isso não era importante determinar se era cedo, tarde, horário de verão ou inverno. Para ele, tudo estava acontecendo do nada, sem nenhum motivo especial. Era o tipo de cara que passava por debaixo de escadas, tinha um gato preto de estimação e detestava o cheiro de arruda. Não via graça em duendes, não tinha medo de quebrar espelhos e achava que sorte era sinônimo de oportunidade. Queria saber melhor quem era a garota de vestido azul, só isso. Aquela festa, aquelas bebidas coloridas e a aglomeração de pessoas formavam o cenário mais do que perfeito para mais um encontro casual.

Ela, por sua vez, tinha um patuá pendurado no pescoço. Carregava três amuletos dentro da bolsa e tinha uma ferradura apoiada atrás da porta do quarto. Achava estranho conhecer alguém justamente numa sexta-feira 13. Poderia ser sinal de alguma coisa macabra, afinal. Teve medo, mas se segurou. Quando descobriram um ponto de ligação - amigo, do amigo, do amigo -, ela teve certeza de que ele era um enviado do destino para modificar alguma coisa em sua vida. Pensou em cortar o papo, mas estava bom demais para descartar aquela chance. Correu ao banheiro, ajoelhou-se repetidamente por 13 vezes, rezou uma oração espanhola e voltou. Era seu método pessoal para fechar o corpo em casos de emergência.

Decidiram encarar a situação. Ele, por não ter nada a perder. Acaso é acaso. Ela, por medo de perder algo que o futuro lhe reservara. Destino é destino. Beijaram-se longamente. Trocaram telefones, sairam outras vezes, viram juntos o nascer do sol pela janela de um motel barato. Ele gostava de motéis baratos, do clima marginal. Ela também. Conversavam pouco, mas tinham algumas poucas coisas em comum.

Com o tempo, as tais poucas coisas se esgotaram. Escaparam pelo ralo. Depois de uma noite boa e clara, tudo havia terminado. Nada restara naquela cama além de dois corpos que não sabiam exatamente porque ali estavam. Ele vestiu a calça, ofereceu a ela uma carona - não aceita - e partiu. Era o acaso, nunca mais se encontrariam novamente. Não tinham laços fortes, e as coisas simplesmente acabam nesta vida. Ela chorou, beijou um galhinho de arruda e colocou-o dentro da bolsa. Era o destino tramando contra ela, mais uma vez. Uma promessa de romance que converteu-se em farelos de um fim triste. "Eu sabia, eu sabia", dizia ela. A razão e a superstição encontraram-se e despediram-se como num piscar de olhos.



por Vanessa Marques | 10 alguéns