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Última viagem

Sexta, 27 de Janeiro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Já era um senhor, uma pessoa idosa, mas nunca havia visto o mar. Seu Jairo se deu conta de sua condição enquanto fumava o seu cigarrinho, sentado na soleira de casa, em algum lugar do interior.

Passou a vida inteira naquela cidade, com exceção de uma ou duas vezes, em que visitou os parentes na capital. Mas só isso. Não tinha muita ambição. Seu emprego na prefeitura e seu vira-latas eram o suficiente pare ele. Fora casado, mas ele e a Dona Laura nunca conseguiram ter filhos. Ela morrera há alguns anos. Agora eram apenas ele e Rex.

Não se sabe o que criou em seu Jairo, de repente, essa curiosidade pelo mar. Talvez uma música no rádio ou um cartaz na rua. O que importa é que se acendeu nele uma enorme vontade de ver aquele monte de água, de areia, ondas e moças de biquíni.

Decidiu ir ao litoral. Tirou seu FIAT 147 da garagem, pediu para que uma vizinha cuidasse de Rex até que ele voltasse, colocou algumas roupas em uma sacola de feira, separou dinheiro e partiu. Parou no primeiro posto de gasolina para abastecer perguntar como se ia para a estrada.

Informado e com o tanque cheio, Jairo começou a sua viagem. Seu carro andava muito devagar, por isso ele tinha que ficar sempre à direita. Não se importava. Ia calmo, ouvindo músicas antigas em seu toca fitas. Assim, sua viagem demorou alguns dias.

Deu carona para uns garotos, trocou um pneu furado, parou em um posto, ajudou a evitar um assalto, viu um acidente horrível, deu carona para uma moça, ouviu histórias de caminhoneiros, dormiu no carro, viu o sol se por, recusou uma proposta de trocar seu carro por uma moto, se arrependeu, teve outro pneu furado, viu o sol nascer, conheceu um borracheiro que contava piadas, comeu num banco de praça, brincou com uma criança em um balanço, ficou triste por não ter filhos, se despediu do borracheiro, pegou chuva, descobriu que seu carro tinha goteiras, errou o caminho, deu carona para um mendigo e ganhou uma fita do Raul Seixas.

Então, quase chegando à tão sonhada praia, se deu conta que havia vivido mais nesses últimos dias do que em vários anos. Percebeu também que o relógio havia se acelerado, que seu tempo estava correndo. A morte vinha atrás dele. Decidiu acelerar o máximo que pudesse. Queria tomar um banho de mar antes que ela o alcançasse.

inventado por: Robinson Melgar | Eba! 2 já me deram atenção