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Triângulo da Perdição

Quarta, 26 de Abril de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Irmãs não eram. Talvez amigas - ou algo próximo disso -, mas ninguém jamais soube qual era o verdadeiro relacionamento entre as duas. Nutriam um gosto quase doentio por safadezas sexuais. Em pouco tempo ficaram conhecidas por toda a cidade de Caçapava, e o motivo de tal notoriedade não era dos mais nobres. Clara e Lúcia, as depravadas. Ninfomaníacas, taradas, meretrizes, rameiras: eram tantas as alcunhas que poderia escrever um livro apenas citando-as. A diferença de Clara e Lúcia para as demais moças libertinas da cidade era crucial, pois elam também divertiam-se entre si. Conheciam e aprovavam o sabor quase sublime do sexo puramente feminino, sem intervenções agudas, secas e brutas. Mas também divertiam os homens, quase sempre em dupla.

Não é preciso explicar porque logo viraram alvo da ira das mulheres e desejo praticamente incontido dos homens. Impossível era fingir indiferença perante as "gêmeas", como passaram a ser chamadas nas rodas de bate-papo. Uma loura, outra morena. Uma magra, outra voluptuosa. Eram gêmeas apenas no gosto pelo prazer barato e despudorado. Nos bares e nas repartições públicas, onde os homens são sempre maioria, o assunto não era outro. Roberto, homem sério, casado, pai e abstêmio, passou a sonhar com as gêmeas durante cada minuto do seu dia, dormindo ou acordado. Contou a alguns amigos, que demonstraram cumplicidade. Não conseguia cumprir sequer o coito quinzenal com a esposa, dados seus pensamentos desatados acerca da anatomia daquelas duas mulheres. Não sabia mais o que fazer com o suor frio que pingava de sua testa no meio da noite, depois dos delírios mais sujos que um homem poderia ter.

Lúcia era dependente. Insaciável, morena de pele bege, olhos redondos e vivos, curvas sedutoras. Era perfeita dentro de sua imperfeição rasgada e feminina, sedenta, quase cruel. Não deixava brechas para Clara, consumia suas entranhas abertamente, cobrava da amiga noites em claro para que pudessem realizar suas fantasias e dos homens que as rondavam como cães famintos. Clara tinha postura mais fria, ainda que desejasse aquela vida tanto quanto a amiga. Eram unidas pelo nó cego de um impulso. Ou simplesmente estavam unidas, até a tarde morna daquela segunda-feira, quando abriram as portas de um quarto úmido para Roberto.

Ninguém deconfiaria. A uma hora daquelas ele deveria estar na repartição. Disse ao chefe que precisava ir ao médico, inventou uma apendicite. Saiu correndo, abrindo os botões da camisa de cambraia. Não aguentava o sangue fervendo e desmanchava-se em bicas debaixo da roupa. Parou em um bar, tomou o primeiro porre de sua vida. Precisava de coragem etílica para cometer um deslize tão grave. Mas e as crianças? E a Maria? Ora essa, este Cynar arranca da cabeça qualquer pensamento moralista. Chegou desfigurado ao local combinado, entrou depois de conferir se alguém vigiava seus passos. Fechou a porta rapidamente. As gêmeas brincavam nuas sobre a cama, como meninas descobrindo caminhos proibidos. Ele, já descontrolado pela bebida, mergulhou entre as duas e deixou-se ser descoberto e vasculhado. Tudo transcorria como em seus devaneios pornográficos, até que seu olhar cruzou brutalmente com o de Clara. E ali ambos congelaram.

Era como se Lúcia tivesse sido abruptamente cortada da cena. Não fazia mais parte do quadro, estava desfocada, em terceiro plano. Sentiu-se rejeitada, expulsou Roberto do quarto a tapas. Tentou ainda seduzir Clara, mas ela estava sob o efeito de um encanto aparentemente inexplicável: dormiu de olhos abertos, um ar de riso tomando sua face. Lúcia estava amedrontada, apreensiva. Arrumou as malas e disse à amiga que iriam embora para outra cidade, alguma bem distante. Clara mandou um bilhete para Roberto, onde descrevia um plano. Seguiu rumo à estação de trem com Lúcia, como se tivesse acatado a vontade da amiga em seguir para outras terras. Quando estavam à beira dos trilhos, Clara empurrou a velha amada em direção ao trem cargueiro que passava em alta velocidade. Por sua destreza, ninguém notou o crime. Chorou de maneira desesperada, como se tivesse presenciado um acidente terrível.

Clara saiu da estação. Parecia vencedora caminhando pelas ruas da cidade. Bateu sem pensar à porta da casa de Roberto, que imediatamente abandonou mulher e filhos à mingua. Tomaram juntos um porre para comemorar - o segundo dele, o centésimo dela - e caminharam sem rumo. Mudaram-se para Rio Preto, casaram-se numa capela e jamais a cidade conheceu um casal mais correto e decente que aquele. Ninguém nunca desconfiou dos efeitos daquele primeiro porre e das gotas de sangue que inundaram o chão de um quarto úmido no subúrbio de Caçapava.         

por Vanessa Marques | 5 alguéns