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Terapia Matinal

Segunda, 20 de Março de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

- Oi, você vem sempre aqui?
- Aqui, na fila da padaria?
- Isso.
- Todos os dias.
- Impressionante. Como nunca notei estes sapatos ridículo que você usa?
- São galochas.
- Ah, claro. Galochas. E você as usa mesmo com o sol brilhando? Eu chamo isso de excentricidade.
- Por que o senhor não cuida da sua vida?
- Eu sou terapeuta. Estudei por anos para cuidar da vida dos outros.
- E não cobra nada pelo serviço, pelo o que vejo.
- Você já tinha me notado por aqui, senhora?
- Nunca.
- Ainda bem, porque eu nunca tinha vindo antes. Sinal de que a senhora não tem esquizofrenia.
- O senhor me deixe em paz, por favor?
- Conte-me sobre seu casamento.
- Ah, o Julio Alberto é um belo de um folgado... Não pega no batente nem por misericórdia e come o dia int...
- Sexualmente ativo?
- Como?!
- Se o Julio Alberto ainda dá uma sapecada ou já se aposentou, em outras palavras.
- Em feriados prolongados a gente tenta, porque tem mais tempo livre pra ver se pega no tranco.
- Bom, mas a senhora também não ajuda, né? Se veste mal como uma pedinte, anda toda torta...
- Será que o problema é este?
- É o que cheira, é o que cheira.
- Também, levo uma vida dura como dona de casa, não tenho tempo ou dinheiro para me cuidar.
- Posso dar um trato na senhora, se lhe agradar a idéia.
- Como assim, "um trato"? Cabelo, maquiagem, roupa nova?
- Não, não. Estava pensando em conhecê-la no sentido bíblico, sabe? Prestar um serviço de auto-conhecimento à senhora e devolver-lhe a auto-estima.
- Ah, sei... Espera um momento aí. Meia dúzia de pãezinhos e dois litros de leite, faz favor, moço.
- E então? Topas?
- Posso levar o Guildo?
- Quem?
- Meu fox paulistinha.
- Cachorro?
- É. Mas é manso.
- Zoofilia descarada, minha senhora? É isso que estás insinuando?
- De leve.
- Sabia que havia sinais claros de distúrbios, desequilíbrio e perturbações logo que lhe vi de galochas! Sabia!
- Vamos?
- Vamos. Reparte os pães e o leite comigo? É que estou sem dinheiro.
- Claro. Eu sempre carrego um pote de margarina comigo. Nunca se sabe o que vai acontecer.
- Cadê o Guildo?
- Dentro da bolsa também. Chegando no motel, lhe apresento.
- A minha única segurança é saber que Deus protege os bêbados, as crianças e os terapeutas. Simbóra.

por Vanessa Marques | 4 alguéns