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Tarde Demais (ou a carta que não pude enviar)

Quarta, 19 de Julho de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

"You’re leaving so soon
Never had a chance to bloom
But you were so quick
To change your tune
Don’t look back
If I’m a weight around your neck
Cos if you don’t need me
I don’t need you
"
Leaving So Soon - Keane


Espere aí. Fique um pouco até que eu termine de amarrar este fardo de idéias perdidas. Não estou conseguindo organizá-las direito, pois algumas pequenas ficaram presas embaixo da pilha e outras grandes amarradas por cima, tirando o equilíbrio dos papéis. É preciso deixar tudo em ordem para que meus argumentos não desabem quando este texto começar a andar.

Eu torço para acordar qualquer dia desses sem que você seja a minha primeira conexão neural. Mesmo. Porque não é preciso mergulhar muito fundo para saber que você representa tanto para mim por um motivo bem simples: não me deu muita atenção. Mexeu com meus brios. De tanta indignação pela sua indiferença, acabei caindo e rastejando em volta das suas pernas. Não conheço nada tão estúpido quanto o ser humano. Nosso modus operandi emocional beira o ridículo.

Abri lentamente a porta da frente daquela casa que já me parecia familiar e dei de cara com a rua da amargura. Um vento bateu e a porta fechou, impedindo que eu retornasse para dentro da sala. Aquele já não era meu lugar. E naquele momento eu esqueci que pronomes possessivos existem, porque, a bem da verdade, eles só existem mesmo nos livros de gramática. Seu, sua, meu, minha: nada mais fazia sentido. Você, justamente você, tinha me deixado sozinha quando tudo o que eu não podia era ficar sozinha. Era como se meus pulmões tivessem despregado do peito e escorrido pelas pernas em líquido, tamanha a dor e a impossibilidade de respirar.

Até então, algumas coisas não tinham sido entendidas por mim. Você não é, você simplesmente está. E, quando vi a rua deserta, percebi que você não estava mais. Corri por todos os lados, tentei alcançar as esquinas, mas não tinha forças. Não tinha fôlego. Eu queria habitar novamente a tal linha de equilíbrio, aquele lugar onde as alegrias e as dores nunca são tão intensas. Mas... Qual seria o caminho de volta? Agora tudo já estava perdido, sim. Os deslocamentos já haviam sido feitos.

Cruel e desumano. Eu queria ao menos ter enxergado sinceridade nos seus olhos e em todas as coisas que você disse e deixou de dizer. Mas não. Você se escondeu. Desapareceu de mim para não ter que enfrentar as minhas lágrimas, a minha sensação repentina de desespero ao sentir que o chão havia desaparecido. Cruel e desumano.

Eu superestimo as pessoas. Olho para elas e acredito. Acredito mesmo sem as certezas necessárias, porque preciso acreditar em alguma coisa. Então, levando em conta todas as dores e as demais feridas, eu só queria que você tivesse sido verdadeiro. Talvez agora eu ainda soubesse andar, para virar as costas e seguir por alguma rua vazia e escura. Mas, no meio das suas histórias todas, para que servem minhas pernas? Eu estou aqui. Inerte. Imóvel.

Mas por favor, se existir uma próxima vez, seja verdadeiro. Verdadeiro até mesmo em cada um de seus pontos de interrogação.



por Vanessa Marques | 6 alguéns