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Sua rua

Quarta, 12 de Julho de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Dobrou a esquina, mas parou pouco adiante. Estava voltando da padaria, um quarteirão à cima. Era novamente sua rua. Provavelmente agora seria até o fim, pensou, enquanto ainda estava ali, parado, observando. Observando sua rua.

Vivera ali por quase 20 anos. Infância e adolescência. Muitos amigos, algumas brigas, namoradas. Tudo naquela rua. Sua rua. Ela estava envelhecida, mais moderna, com calçadas até, novas casas. Envelhecida, para ele.

No seu tempo, como se agora não fosse mais, não havia calçadas. Algumas casas até tinham, mas em geral era a grama mesmo que terminava já no asfalto, apenas com um caminho de pedras levando até os pequenos portões.

Num suspiro ganhou o impulso para seguir caminhando até sua casa. A mesma velha casa, bem cuidada. Era seu segundo novo dia na velha casa. Separado da mulher, foi morar com o pai. A mãe morrera muitos anos antes.

No meio do caminho parou novamente, agora para ver um grupo de garotos brincando com suas bicicletas. Pulavam em uma pequena rampa, feita com um pedaço de tábua colocada sobre uma pedra.

Pegou um dos moleques pelo braço. Entregou o saco de pão e assumiu a bicicleta. Apesar da falta de equilíbrio, tentou empiná-la. O pneu da frente pouco saiu do chão. Mesmo assim, com o impacto, quase caiu, batendo o pé no chão com força para evitar a queda.

Os garotos riram, não por maldade, mas pensaram que aquele tiozinho queria fazer graça mesmo. Não queria. Sem dizer nada, apenas apanhou o saco de pão e foi rapidamente para casa. Não lembrou mais de observar que estava na sua rua.

Abriu a porta, deixou o pão sobre a mesa da cozinha e sentou-se na sala, onde o pai acompanhava um programa qualquer na televisão. Não conseguiu se concentrar. Pensava apenas em quando ainda sabia andar bem de bicicleta.

Antes de sair daquela casa, sentia-se conhecido na rua. Era o campeão de pedaladas com a bicicleta empinada. Hoje uns garotos bobos, filhos de moradores novos, riam dele. Não era mais sua rua.    

bibibi e bóbóbó por: Xandão | 2 já xingaram o técnico