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Shakespeare

Quinta, 17 de Agosto de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Pensando, roendo traseiras de lápis e rabiscando fluxogramas num bloquinho, cheguei à conclusão de que o teatro morreu há dois mil anos*.  Existiu, no entanto, uma espécie de sobrevida da arte, e cronologicamente este momento situa-se entre a rabeira da idade média e o início da idade contemporânea. O responsável por este suspiro fora de hora foi o grande Shakespeare e seu brilho indiscutível. Mas comecemos pelo falecimento teatral. O primeiro ponto é que constatei tal catástrofe com base nas peças horrorosas que assisti ao longo de anos. O segundo ponto é que meu gosto pessoal não seria suficiente para fundamentar a minha afirmação, então estudei um pouco sobre a história das artes cênicas, a evolução dos roteiros teatrais e as bases das produções atuais. Obviamente, comprovei que o teatro realmente havia batido as botas junto com Sófocles, Aristófanes e companhia limitada.

Mas... Existe Shakespeare bem no meio da história do teatro morto. E ele faz toda a diferença. Uma das únicas boas peças que vi na vida tem um dedo dele logo no título: "A Vida é Cheia de Som e Fúria", de Felipe Hirsch. Ainda que seja essencialmente baseada em "Alta Fidelidade", o livro mais famoso de Nick Hornby, ela possui também outras referências visuais e psicológicas muito marcantes. E tem, perdida no meio do texto, a citação de uma das frases mais brilhantes de Macbeth: "A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, e que significa nada". Alguém aí tem coragem de discordar?

Pois bem. Shakespeare, ainda que poucos saibam, ficou conhecido primeiramente por suas poesias. Isso porque os teatros londrinos ficaram fechados por muitos meses por conta da peste que corria solta na Europa, e centenas de peças ficaram engavetadas. Eu, xucra que sou, nunca fui muito fã de poesia**, mas Shakespeare era um sujeito tão batuta que escreveu algumas que agradam até a mim. Assim sendo, pare tudo e pense comigo: se o cara conseguiu ressucitar o teatro, aquela expressão artística que já não conseguia sequer agachar no chão para recolher seus próprios cacos, e ainda por cima conseguiu escrever poesias fascinantes - porque escrever poesia chata e modorrenta é fácil, diz aí -, é porque ele era bom. Muito bom. E não merecia cair na boca do povo por culpa de um trocadilho tão infame quanto "Milk Shakespeare".


* quase 2500 anos, eu sei, mas a gente arredonda os números de maneira descabida para tornar as frases mais sonoras.
** sinto-me obrigada a dizer que Fernando Pessoa habita o meu corredor de sagrados, comprovando mais uma vez que regras nasceram para ter exceções.


por Vanessa Marques | 4 alguéns