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Sexta-FeiraSegunda, 10 de Outubro de 2005* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa Um milionário excêntrico (perdoem-me por apelar para um estereótipo tão estúpido) decidiu morar em uma ilha deserta. Cansou-se das pessoas, do jogo de interesses e dos relacionamentos superficiais. Queria ficar sozinho e pensar, tornar-se uma espécie de ermitão. Não conseguia imaginar nada que o deixasse mais feliz.Mas, como era um cara que gostava de conforto, decidiu equipar o lugar antes, para viver melhor. Mandou construir uma casa com piscina em uma ilhazinha no Pacífico Sul. A moradia iria contar com sistema de conversão de energia solar em eletricidade, acesso à internet via satélite e academia de ginástica. Para a alimentação, um imenso estoque de feijoada enlatada, hambúrguer congelado e macarrão instantâneo. Com toda essa estrutura iria precisar de um caseiro. Por isso, pediu para um de seus empregados ir a Boiçucanga comprar um filhote de índio. Um indígena daria mais credibilidade à coisa toda. O garoto foi batizado de Sexta-Feira, depois de muita confusão no cartório. Lembrou-se de que o mais difícil seria ficar sem mulher e comprou uma boneca daquelas bem reais. Como não se recordava de nenhuma personagem feminina no Robinson Crusoé, que aliás nunca tinha lido, chamou a moça artificial de Srta. Crusoé. Como não queria ser encontrado de maneira nenhuma, forjou sua própria morte. Comprou um cadáver de um amigo de IML, colocou o corpo num carro com seus documentos e tocou fogo em tudo. Foi para a ilha em seu iate, sozinho, levando Sexta-Feira e Srta. Crusoé. Quando chegou, não deixou o barco ancorado, queria que a maré o levasse embora. E foi exatamente o que aconteceu. Na ilha, viveu uma alegria plena durante alguns meses. Assistia a filmes baixados pela web, comia miojo e tomava Tang. Dava os restos para Sexta-Feira que, num cercadinho no quintal, já começava a se comportar como um selvagem autêntico. Tudo mudou quando o sistema de geração de energia parou de funcionar de repente. Ele se arrependeu de ter usado um sistema ecologicamente correto e não uma mini-usina nuclear, como o Pedrão do IML havia sugerido. O pior é que não havia nenhuma maneira de pedir ajuda. Mas não se desesperou. Já que a idéia era viver sozinho, teria que se acostumar. As coisas não iam bem. Srta. Crusoé parecia mais fria, agora que suas baterias não podiam mais ser recarregadas. Preparar miojo sem microondas também não era nada fácil. Sem o barbeador elétrico, deixou os pêlos no rosto crescerem. Totalmente entediado, passou a dar mais atenção para Sexta-Feira. O menino mostrava-se muito inteligente. Decidiu ensinar para ele o idioma das pessoas civilizadas, regras de etiqueta e as maravilhosas lições que havia aprendido com livros como O Alquimista, Pai Rico Pai Pobre e Um Minuto Para Mim. Sexta-Feira cresceu forte e saudável. Como que instintivamente, talvez por suas origens indígenas, começou a fabricar arcos, flechas, lanças e redes, que usou para caçar e, assim, diversificar um pouco a sua alimentação e a do patrão. Um dia, o selvagem percebeu que o seu patrão era o Pai Pobre do livro, e que estava perdendo tempo ao lado daquele homem. Decidiu partir em uma jornada de auto-conhecimento, como a do jovem pastor de Paulo Coelho. Queria abraçar o mundo e ir além da comida instantânea e da literatura barata. Usando novamente os seus instintos indígenas, construiu uma canoa, sem que o milionário excêntrico percebesse. Partiu em uma noite de lua cheia, levando os apetrechos indígenas que planejava vender em uma feirinha em Boiçucanga, onde o seu patrão dizia tê-lo comprado. Pretendia utilizar esse saldo inicial em ativos que lhe renderiam mais ativos. Foi embora porque cansou-se da solidão, queria participar do jogo de interesses e dos relacionamentos interpessoais. Queria fazer parte da multidão e agir, tornar-se igual a todos. Não conseguia imaginar nada que o deixasse mais feliz.
inventado por:
Robinson Melgar | Um quis ser meu amigo
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