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Os três amigos

Segunda, 19 de Junho de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

– Vamos para o bar, cara. Isso aqui acabou.

A proposta não pareceu ruim a Athos, que a aceitou prontamente. Ele estava com os olhos vermelhos, achava estranho ter chorado na frente dos outros. Mas dessa vez nem pensou nisso. Um homem tem o direito de derramar algumas lágrimas quando um amigo morre.

– Acho que a gente deveria ir ao Dumas e Outras. O Aramis detestava o nome desse bar, mas adorava beber lá. – Sugeriu Porthos.

Entraram no carro e dirigiram até o outro lado da cidade, onde ficava o boteco. Escolheram uma mesa na calçada.

– Cadê o outro garoto – perguntou Seu Dumas – não vem hoje?

– Nem hoje nem nunca mais – respondeu Athos – estamos vindo do enterro dele. Que pinga tem aí?

Seu Dumas ficou desolado. Há menos de uma semana tinha visto o outro garoto, bebendo, falando umas bobagens. E agora morto. Coisa muito triste essa vida às vezes. Foi lá, pegou uma garrafa, dois copinhos, deixou em cima da mesa dos rapazes e foi para dentro fazer suas coisas.

– Porthos, não é falta de respeito beber numa situação dessas?

– Se o Aramis escutasse você agora, ele daria risada. Era o cara que menos ligava para esse tipo de coisa. Já ouvi ele falando que gostaria que a galera enchesse a cara em homenagem a ele, quando morresse.

– Acho estranho ele falar uma coisa dessa, como ele podia falar em morte assim, ela parecia tão longe dele – refletiu Athos, antes de virar um copo.

– É, mas agora está lá de paletó de madeira.

– Virou presunto.

– Ta comendo capim pela raiz.

– Bateu as botas.

Começaram a rir, esse era exatamente o tipo de brincadeira desrespeitosa que o Aramis gostava. Nada para ele era sagrado. Não ligava para ideologias, tradições ou religiões. Não que fosse um louco, sem princípios, simplesmente ele sabia que não havia nenhum problema em rir dessas coisas. Tanto que nunca levou essa história de morte muito a sério. Depois ficaram sérios. Athos recomeçou a conversa.

– Que saudade daquele filho da puta. Sábado mesmo estava dando uma de retardado aqui nesse bar. Depois aquietou e ficou sério daquele jeito que ficava às vezes.

– É nessas horas que ele falava que devia mudar de vida, fazer alguma coisa de grande, de ser alguém para ser lembrado, que a vida é uma só e que a maioria das pessoas nem se dá conta disso.

– Mas ele fez grandes coisas. Só não valorizava.

– Sim, ganhou aquele campeonato de frisbee.

– Ficou bêbado e comeu meio sanduíche do lixo.

– Hahaha, essa foi foda.

– Mas teve uma mais foda ainda...

Então Porthos relembrou um fato ocorrido alguns meses antes. Os três andavam pela rua, quando passaram por um homem caído na calçada. Aramis parou de repente e disse:

– Galera, como a gente pode fazer isso? A gente passa por pessoas caídas na rua e nem sabe se elas estão mortas, se estão passando mal. Como a gente pode ser tão indiferente?

– É um bebum Aramis! – respondeu Porthos – imagina se dá para ficar ajudando todos os mendigos da rua agora.

– Mas esse eu vou ajudar. O cara pode estar morrendo, olha lá. Com a boca aberta, caído no chão.

Resoluto, Aramis foi até onde estava o homem. Os amigos, meio que sem saber o que fazer, resolveram acompanhar. Ele então levou os dedos ao pescoço do desafortunado, para ver se ele tinha pulsação. Só que, mo mesmo instante, o vagabundo abriu os olhos e começou a gritar. Depois ficou em pé e xingou os rapazes com todos os palavrões que tinha em seu repertório. Depois do susto, eles foram embora rindo. Athos brincou:

– Bebum do caralho.

– Haha, é verdade. Mas pelo menos ele está vivo. Não me arrependo de ter ido lá conferir. Foi bom ter agido assim, com grandeza, pelo menos uma vez.

– Você é cheio das idéias Aramis. Vamos logo que a gente está perdendo a festa.

Os amigos, no bar, relembraram essa história com prazer. Perceberam que o mundo perdeu uma boa pessoa, pelo menos uma bem intencionada. Fizeram um brinde a Aramis, prometendo que nunca se esqueceriam do companheiro. O sol começou a baixar, chegou a noite, amanheceu o dia e a vida continuou.

inventado por: Robinson Melgar | Um quis ser meu amigo