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O que há no além vida?

Quinta, 5 de Janeiro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa


Luiz sempre quis saber se havia vida após a morte. Durante todos os anos de sua vida, que não foram muitos, diga-se, esta era a pergunta mais recorrente que passava por sua cabeça.

Ele também se perguntava por que diabos todos os árbitros de futebol tinham três nomes, mas essa questão ele colocava em segundo plano. Mesmo porque, sempre que começava fazer essa lista mental, pegava no sono antes de concluir.

“Vamos ver, vamos ver... Arnaldo César Coelho, José Roberto Wright, Dulcídio Vanderlei Bosquilla, Éber Roberto Lopes, Silvia Regina de Freitas, Márcio Resende de Freitas, Djalma ‘Kilove’ Beltrame, José Aparecido de Oliveira, Carlos Eugênio Simon e... e... ZZZ... ZZZ....”

Pois é, então a coisa que Luiz sempre quis mais saber foi se havia vida após a morte. Até que um dia, fazendo uma viagem tranqüila até Santos, litoral de São Paulo, Brasil, começou a enumerar os árbitros com três nomes, pegou no sono como de praxe e acabou pegando também uma ribanceira.

Quando passou pela sua cabeça que poderia morrer, ficou desesperado. Por um lado, até que teve uma ponta de felicidade, pois percebeu que finalmente teria a resposta para o questionamento. Por outro, ficou desacorsoado. Era jovem demais, queria casar e ter filhos e – o mais importante – queria lembrar algum árbitro com dois nomes. O pânico total veio quando, em uma seqüência rápida de pensamentos, concluiu que nunca poderia ter suas respostas.

“E se não houver nada do outro lado? E se não houver vida após a morte? Então, isso quer dizer que morrerei e não saberei que não há nada. Mesmo porque se assim for, não terei mais consciência e não saberei que não há nada e nem mesmo que morri. O pior de tudo é que posso morrer sem descobrir um mísero juiz com dois nomes. E aí, sim, vou com duas dúvidas para o além vida.”

Luiz morreu mesmo. Foi para o beleléu e pro quiabo. Esticou as canelas e abotoou o paletó de madeira. E chegou ao outro lado.

Entretanto, com a batida e a subseqüente explosão de seu Fiat 147, o rapagote acabou perdendo a audição, a visão, o dom da fala e algumas partes do seu corpo como pernas e braços, tronco, pescoço, cérebro. Ele ficou reduzido a um pâncreas semi-intacto (já que estava levemente chamuscado pela explosão do fióla véio).

Como é sabido, algumas religiões não muito conhecidas pela cultura ocidental, como a Sagrada Igreja dos Periodistas do Quarto para o Quinto Dia, acreditam piamente que o modo que morremos é o modo como chegamos ao além vida. É também lugar comum que as religiões têm suas jurisdições sobre a Terra, sendo que dependendo do número de fiéis que elas arrebanham, maior a área de atuação sobre as mortes.

Por exemplo, quem morre em toda a Europa vai para o céu, purgatório ou inferno católico. Os defuntos da Ásia são agraciados com o além vida budista. Boa parte da América Central e do Norte tem como jurisdição a religião evangélica. Na maior parte da América do Sul e Austrália, a galera vai de encontro ao que acreditam os ensinamentos espíritas.

As religiões menores ficam espalhadas por aí. Quem morre em Antonina, no Paraná, Brasil, vai para o céu, inferno ou qualquer coisa em que acreditem os Mórmons com relação ao além vida. E por uma incrível coincidência do destino, a Estrada de Santos fica sob jurisdição da Sagrada Igreja dos Periodistas do Quarto para o Quinto Dia.

E por isso, no além vida, o agora pâncreas Luiz ficou lá, parado, sobre uma pedra, sem ter consciência alguma de que havia um além vida. Sem saber o que se passava, o que era, onde estava e qualquer coisa deste naipe.

Anos mais tarde, no mesmo trecho da Serra do Mar em que seu carro bateu, um ônibus com dois times inteiros de futebol teve o mesmo destino trágico. Mas como nenhum dos jogadores perdeu as pernas ou os pés, chegaram ao além vida e já começaram a bater uma bolinha.

Como não tinham uma, improvisaram Luiz, que não ofereceu resistência, principalmente por não saber o que se passava. Se soubesse, por certo, antes de reclamar, perguntaria se algum deles conhecia algum árbitro com apenas dois nomes.

Por uma ironia do destino, e para dar um final a esta longa história, o acidente que envolveu o ônibus dos jogadores de futebol contava também com um árbitro em fim de carreira, que tinha apenas dois nomes.

Mas claro também que o pâncreas Luiz não ficou sabendo disso. A sua maior preocupação neste dia era produzir insulina e demais as substâncias necessárias para a digestão dos alimentos. Papel que todo bom e pacato pâncreas deve desempenhar.


psicografado por Sérgio Vinícius | 3 comentários