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O médium badalado

Terça, 3 de Janeiro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Nunca acreditou nessas coisas de além-vida, até o dia em que começou a ver fantasmas. Estava no sofá de casa, assistindo o Goulart de Andrade e tomando um guaraná sem gás, quando viu a sua avó sentada na poltrona em que sempre ficava quando viva.

– Caraio, pirei! Não devia ter fumado tanta maconha na época da faculdade.

– Pode fumá droga não fio. Isso é coisa de bandido.

– Mas eu parei vó. Era quando eu estudava.

E continuaram a conversar por mais uma meia hora. Então ele teve sono, pediu licença e foi se deitar. Antes de dormir, achou engraçado que a avó, mesmo já tendo ido para o outro mundo, ainda tivesse os mesmos preconceitos e continuasse um pouco gagá.

Depois começou a ver outras pessoas. Primeiro parentes: um tio num dia, uma tia noutro. Nunca falava sobre isso para ninguém, ainda morava com a mãe e ela iria encher o saco. Ela era evangélica e provavelmente iria levá-lo para que o pastor o exorcizasse.

Com o tempo, começou a ficar de saco cheio dos fantasmas, que sempre apareciam quando ele estava vendo o Comando da Madrugada, seu programa preferido. O pior é que nunca vinha mulher gostosa, eram sempre tiozinhos e tiazinhas. Começou a pensar que as boazudas preferiam se manifestar para os médiuns mais badalados.

Um dia apareceu o Espírito Jeremias, que foi um escritor desconhecido e mal sucedido durante a sua vida. Com ele, o rapaz teve diversas conversas interessantes sobre literatura. Falavam de gente como Dostoievski, Jorge Luis Borges, Milan Kundera, Graciliano Ramos, Gabriel Garcia Marques e outros dos autores preferidos de Jeremias.

– Eu deveria ter escrito um livro de auto-ajuda, sabe? É onde rola o dinheiro.

– Isso é verdade, mas agora você já morreu. Acabou sua chance.

– Eu poderia ditar para você, o que acha? Quem sabe você não fica rico.

– Boa! Essa porra vai vender! Além de ser de auto-ajuda é psicografado.

– Legal. Vamos lá para o computador.

E assim, durante meses, o rapaz e Jeremias escreveram o livro nas madrugadas. O trabalho demorava porque havia pausas para comer porcarias, assistir ao Comando da Madrugada, ver pornografia na internet e fumar cigarros. Mas o livro acabou ficando pronto. Eles decidiram chamá-la do “Aprenda a Influenciar Espiritualmente Quem Mexe No Seu Queijo”, com créditos tanto para o rapaz quanto para o Espírito Jeremias.

A obra acabou sendo um sucesso e o cara ganhou muito dinheiro. Fechou contrato com uma grande editora para escrever outros livros, foi no Jô Soares e comprou uma casa com piscina. Sua parceria com Jeremias durou toda a sua vida.

O Espírito nunca o abandonou já que, agora que o rapaz era um médium badalado, a casa sempre estava cheia de fantasminhas gatinhas e gostosinhas. As interesseiras existem em todos os planos.

inventado por: Robinson Melgar | Eba! 7 já me deram atenção