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O Fracasso é o PóQuarta, 29 de Setembro de 2004* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa O fracasso estava ali, parado, fumando um cigarro. Olhava de maneira cínica para Elias, que caminhava lentamente ao seu encontro. Um passo adiante e ele cairia dentro daquele poço gigantesco e sem fundo onde estavam todos os que não chegaram a lugar algum nesta vida: aeromoças velhas, adolescentes revoltados, advogados falidos, vendedores da Barsa e participantes do Big Brother Brasil. Até uma gordinha trajando uma camiseta com a inscrição “No Limite” estava lá dentro, sentada numa pedra, comendo um acarajé. Um lugar horroroso, em suma.“Joana, aquela vagabunda... culpa dela, eu estar aqui. Nestor, gato ingrato... Não se pode confiar em ninguém nesta vida! Nem mesmo em um felino vira-latas!”, praguejava o pobre Elias enquanto seguia rumo à própria ruína. Ninguém sabe ao certo como chegou tão longe no que diz respeito à dor, mas Elias sentia seu coração frio como uma madrugada coberta por granizo. Não suportava mais viver dentro de seu casulo asqueroso e nostálgico, cheio de lembranças de tudo aquilo que não queria recordar. Primeiro foi sua auto-estima que fez as malas e disse adeus. Em seguida, seu gato de estimação saiu pela janela depois de um miado agudo e nunca mais voltou. Encorajada por seus antecessores, Joana também fez as trouxas do marido e colocou-o no meio da rua. Não demorou muito para que o chefe também se sentisse no direito de dispensar seu funcionário, já que não raro o azarado chegava atrasado, cambaleante e ainda por cima com mau hálito: “Olha, Elias, meu filho... Você trabalha direitinho. Mas sua mulher me contou sobre as bebedeiras e...” Grande sacripanta, a Joana. Não contente em deixar o pobre sozinho, sem gato e na rua da amargura, ainda por cima mexeu os pauzinhos para tirar-lhe o emprego na prefeitura. Descascou a vida do marido como quem descasca uma banana. E o banana, no caso, escorregou na própria casca. Tudo o que restava a Elias era um tanque vazio de amor próprio e um pequeno maço de dinheiro recebido do fundo de garantia. Era pouco, mas o suficiente para cobrir os preços do fracasso, ainda que apenas por uma noite. O fracasso, aliás, continuava ali, apoiado no muro, esperando Elias entrar logo no buraco que lhe cabia. Já impaciente com os passos lentos do homem, deu uma olhadela para o relógio da praça e gritou: “Vamos, Elias, porque o coletivo para a Baixada Fluminense pára de passar antes da meia-noite, e eu não vou dormir aqui no meio da rua por causa de um mal-ajambrado como você! Diabos... Daqui a pouco eu pego fama de santo e nêgo vem me pedir até merenda!”. O fracasso, além de cínico e impaciente, era folgado e um tanto desajustado. E lá foi Elias, de passo apressado, correndo para abraçar sua última madrugada.
por
Vanessa Marques | 3 alguéns
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