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O Amor PerfeitoQuarta, 7 de Dezembro de 2005* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa - As mulheres estão indo buscar seus direitos? Então, para não perderem a viagem, será que na volta elas podem trazer uma cerveja gelada pra mim?Gilberto adorava este tipo de comentário. E não perdia uma oportunidade de gastar seu repertório: - Raquelzinha, conte para o titio: o que você vai ser quando crescer? - Tio Giba, o meu sonho é pilotar um avião beeeem grandão. - Raquelzinha, você vai pilotar um fogão, isso sim! Até o dia em que conheceu Rosilene, mulher baixinha, troncuda e bastante rude. Apaixonou-se perdidamente por aquele misto de força e grosseria em figura de mulher. Perdeu o chão, as palavras e esqueceu todas as piadas machistas que costumava soltar nas rodas de amigos. Só pensava em Rosi, a frentista que teria virado do avesso os miolos de Vinícius, caso o nobre poeta tivesse tido a oportunidade de conhecê-la. Enquanto a paixão dominava a vida de Gilberto, ele pensava em uma forma de convidar Rosi para sair. Precisava sentir de perto aquele perfume de óleo diesel, tentar roubar-lhe um beijo, mas o que enviar a ela como convite? Um ramalhete de flores ou uma bigorna? Não sabia como abordar aquela mulher que, se associada a um doce, seria uma rapadura. Estava perdidinho de amor. Até o dia em que, pela sétima vez na mesma semana, Gilberto foi encher o tanque de seu Baja. Foi aí que Rosilene não segurou a língua e puxou papo: - Escuta, ao invés de vir aqui quinhentas vezes para colocar R$ 5 no tanque, porque você não junta tudo e coloca de uma vez só? Não agüento mais ver tua fuça. - É que, é que, é que, é que... - Eu preferia ter um Chevette véio do que um Fusca transformado, se você quer saber... – falou Rosi, palitando os dentes. - É que, é que... - Você é gago, né? Paguá... hehehe. Escuta, seu coió, quer que eu veja a água e o óleo? Gilberto respirou fundo. Enxugou o suor que escorria pela testa, passando a mão brevemente sobre a cabeça. Tomou coragem e disse tudo o que estava preso entre suas cordas vocais: - Você a-a-a-a-a-aceita jantar comigo-igo hoje, Rosilene? - Como é que você sabe meu nome, coió? - Li no crachá. - Ah, sim. Uma janta? Pode ser. Mas não vem com frescuralhada. Eu gosto memo é de um mocotó com angú de frade. - Te pego às 20h, então? - Tá maluco? Às 18h meu estromo já tá pregado nas costas! - Passo na sua casa às 17h30, então. Me dá o endereço? - Não, tu passa aqui, coió. Eu vou de uniforme memo, que é pra não perder a hora da janta. Que mulher! Que mulher! Gilberto não cabia em si de tanta alegria. Pensava apenas no quanto ela era bruta e se parecia com um pão assado sem fermento, daqueles que ficam duros e maciços. E aquela ignorância ao tratar as pessoas? Tudo em Rosilene era afrodisíaco demais para Giba. Ele separou sua melhor roupa e foi buscá-la pontualmente às 17h30. Foi um grande encontro. Rosilene coçou o traseiro, tomou cerveja preta com ovo cru e mostrou até mesmo como era sua vida de capanga no interior do Paraná, usando como exemplo as orelhas do dono do botequim. A química entre os dois foi tão boa que alguns meses depois estavam entrando de mãos dadas numa capela e consumando o amor perante Deus. Giba virou dono de casa, levando as crianças no posto de saúde e fazendo faxina no puxadinho. Apanha de Rosi quando ela chega bêbada em casa, mas tem medo de denunciar. Isso ia acabar de vez com sua felicidade de viver ao lado da mulher amada.
por
Vanessa Marques | alguém!
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