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Nem sempre fumar acalma

Quarta, 19 de Outubro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Das meninas do trabalho, ela era a única que fumava e tomava café. Carlos achava lindo aquela moça fixando o cigarro entre o indicador e o médio. Com os dedos restantes, ela segurava o copinho com líquido escuro. Tudo isso apenas com a mão direita, branca e delicada. As unhas pintadas de vermelho.

Queria se aproximar da garota, mas só freqüentava a área social para comer barras de cereal e tomar Toddynho. Sempre foi um cara saudável: fazia esportes, bebia pouco e tomava muita água. Mas estava fascinado, o cheiro da fumaça, o vapor do café, misturados ao perfume da beldade faziam a cabeça dele girar. Queria aproximar-se dela.

Chegou à conclusão de que a melhor maneira de abordar a moça era fazendo o que ela fazia. Foi a um Fran's Café, pediu um expresso e um maço de cigarros:

– Qual cigarro? – perguntou a atendente.

Como ele era totalmente inexperiente nesse assunto, pediu um Camel, o primeiro que ele viu. E um isqueiro. Foi para a mesinha e tomou um gole de café. Estava gostoso. Já havia tomado café antes, essa parte não seria problema.

Agora viria a etapa difícil. Pegou o maço. Na parte de trás, a imagem de um pulmão totalmente preto e seco. Pensaria naquilo depois. Abriu a embalagem, tirou um cigarro e acendeu. Tossiu muito. Tentou de novo. Mais tosse. Depois de domar a garganta, conseguiu tragar a fumaça. No final, estava totalmente tonto. "Será que isso acontece todas as vezes?", pensou preocupado.

Não desistiu. Todos os dias, após o expediente, ia à cafeteria e praticava. Descobriu que havia cigarros mais fracos e que se dava melhor com eles. A tontura ficou menos intensa. Aprendeu a simular todos os maneirismos dos fumantes, como segurar o bastão de tabaco com dois dedos e dar um peteleco com o polegar, para bater a cinza, e arremessar a bituca longe, com um movimento do dedo médio.

No local, arrumou alguns amigos fumantes, que ensinaram para Carlos algo da ética do cigarro. Ele aprendeu que nunca se deve babar no filtro. Descobriu também que, quando se pede um trago, dê no máximo dois. Fumantes, geralmente, não gostam de dividir cigarros.

Achou que já estava preparado. Numa segunda, foi para a área social exatamente às 11 da manhã. Sabia que, dali a alguns minutos, ela apareceria. Pegou um copo de café e acendeu seu Marlboro Lights. Seus movimentos eram elegantes, quase tão bons como os dela.

A moça apareceu. Dirigiu-se a máquina e apertou o botão do café. Depois de alguns segundos já estava com seu copinho na mão. Dirigiu-se a Carlos, sorrindo, e falou:

– Não sabia que você fumava também.

A voz dela combinava totalmente com o conjunto. Suave, macia, mas segura de si. Apesar de estar nervoso, Carlos mantinha a pose. Disse afinal:

– Fumo sim, acho só que nunca dei a sorte de estar aqui na mesma hora que você.

Ela deu outro sorriso. Sim, bela resposta. Inteligente e simpática. Ah, as perspectivas eram realmente boas. Teriam mais ou menos dez minutos – tempo de um cigarro – para conversar. Ela posicionou o cigarro entre os dedos, daquela maneira que Carlos conhecia tão bem.

– Tem um isqueiro?

– Tenho.

Ela colocou então o cigarro na boca, puxou o cabelo para o lado e inclinou a cabeça para frente. Queria que ele acendesse para ela. Carlos pegou o isqueiro e aproximou-o.

Havia, porém, um problema gravíssimo: a mão dele tremia. Como uma vara verde. Como uma folha ao vento. Como gelatina. Como a porra de um velho com mal de Parkinson. Não conseguia alinhar a chama com a ponta do cigarro. Essa tortura demorou uns três segundos. Até que o isqueiro apagou-se.

– Deixa que eu acendo.

Ela pegou o isqueiro da mão dele, acendeu o cigarro e devolveu o objeto para Carlos. Ele estava liquidado. Pequenas gotas de suor haviam se formado em sua testa. Ficou tão mal que, tragando, se engasgou e tossiu. Não conseguiu falar mais nada. A moça, sem graça, ficou olhando para os lados, disfarçando, até que chegou uma amiga e as duas começaram a conversar.

Naquela tarde, tomando seu expresso, após o trabalho, percebeu que aprender a fumar era fácil. O difícil, para ele, era aprender a controlar-se na frente de uma mulher muito bonita.



inventado por: Robinson Melgar | Eba! 3 já me deram atenção